quarta-feira, janeiro 12

Se eu tivesse te contado.

Nunca te contei como a tua risada irônica me irrita, como os teus ciumes, teus sumiços, tuas histórias inventadas me corroem por dentro, nem de como tua perna fina é engraçada, como teu complexo de " sou mais foda que todo mundo" soa pretensioso, ou como teu gosto musical é duvidoso.
Nunca te disse que eu preciso de 8 horas de sono por noite, e não de acordar a cada 2 horas com as tuas mensagens envergonhadas pedindo pra eu atender o telefone. Nunca te deixei saber que eu gosto de pelucia mas sou alérgica a elas, e que eu só gosto tanto assim de azul porque é, de acordo com a lenda, a unica cor que afasta os maus espíritos.
Nunca te deixei saber que quando falas sem parar, eu paro de prestar atenção, e quando vens me contar as tuas ultimas aquisições, eu deixo de acreditar.
Nunca te contei que mentir é feio, e que nas tuas mentiras eu monto teias e te pego sempre, mesmo sem que notes.
Nunca te disse que o teu cabelo bagunçado nem sempre é conveniente, que tuas calças baixas são desrespeitosas, Que o teu jeito calmo em meio ao meu desespero só me irrita mais.
Nunca te deixei saber que o fato de você não se acomodar com a situação mesmo quando se acomodar é o mais sensato a se fazer não prova que você é um revolucionário ou qualquer coisa assim.
Nunca comentei que eu sei que nunca trocas os tênis escuros porque os claros estão sempre sujos das tuas andanças secretas e descontroladas pela cidade quando algo te incomoda, nem que as tuas mãos grossas e calejadas encaixam perfeitamente nas minhas finas e macias.
Nunca te sussurrei no pé do ouvido como me derreto quando vens com a tua cara de sono ou como acho bonito quando vens com as tuas ideologias sem fundamento e pouco convincentes pra cima de mim, só pra provar que teus infinitos anos de vida não foram em vão.
Nunca te contei que o sorriso monta no canto do meu lábio quando o porteiro avisa a tua subida ou quando encontro num caderno meu tua letra rabiscada em uma frase qualquer.
Nunca te deixei perceber o meu desespero rente o teu ciúme tampouco minha ansiedade quando demoras pra ligar. Nunca te falei da sensação quando me puxas forte pela cintura quando não temos mais nada a discutir, só pra provar que apesar de tudo, você ainda pode.
Nunca te falei da satisfação ao ver a blusa que eu te dei numa desas comemorações qualquer na cesta de roupa suja, nem de ver que o vidrinho de perfume esquecido na tua mochila numa dessas idas a tarde ao clube agora mora na tua mesa de cabeceira.
Nunca te contei muita coisa, guri, mas as vezes acho que não preciso.