Xingo, admito. Porém não gosto quando os outros me veem xingar, porque eles pensam que só xinga quem é desregulado, quem não tem educação, quem é fraco e sem argumentos. E eu gosto que me imaginem como essas mulheres sensatas, comedidas, racionais, e que usam blazer rosa com saia até o joelho combinando e salto preto bico fino, por mais que eu não seja assim.
Na verdade gosto que me vejam forte e educada, que nem se quer imaginam que, depois de qualquer besteira ruim que acontece pra mim eu choro , e choro. E que cogito todas as noites me mudar para o espaço, só porque lá é impossível soltar lágrimas por falta de gravidade. E que corro pros braços da minha mãe, e que ela, já sabendo dessas minhas fases ruins, senta comigo na sacada e me conta alguma história bonita de quando ela era menor.
Gosto desse teatrinho, no qual sou péssima atriz e acabo deixando todos verem aqueles medos que eu tenho escondido debaixo da cama, mas sigo e finjo que ninguém os viu. Alguns fingem que também não os viram, e seguem sendo atores melhores que eu nesse meu faz de conta, fazendo me tornar uma melhor atriz também. Porque é assim que as coisas são: a gente só melhora quando joga com alguém melhor do que a gente, já dizia algum desses escritores que eu gosto. Alguns no entanto, ao descobrirem o que tem por detrás dessa minha máscara fazem questão de me criticar. De apontar os defeitos que a muito tempo eu sei que tenho e que deixei de tentar combate-los só porque já me acostumei com eles. Eles me criticam por atuar, e eu rio. Quem nesse mundo não atua?