quinta-feira, setembro 30

e se.

Me ocorreu a hipótese de, talvez, eu não ser a guria certa para ele. Dele estar, de repente, perdendo as madrugadas, as fichas, a paciência comigo, enquanto a verdadeira garota certa estava por ai, se envolvendo com caras pouco confiáveis, só esperando ele chegar para salva-la dessa vida de decadência. Ou talvez ela esteja em casa assistindo lost pela trigésima vez, só esperando que ele entre na vida dela de um jeito pouco provável. Vai saber.
Porque, não é assim que as coisas funcionam? Tu vives uma vidinha bem mais ou menos, vai pros barzinhos da vida até que um dia em meio á batida ensurdecedora de uma boate qualquer tu olhas pro lado e vê a guria que casa contigo em todos os teus atos?
Bom, se não é assim, esse é um dos meios.
O que eu quero dizer é que talvez eu esteja aqui só pra preencher um espaço vazio necessário dentro dele. Tentando, mesmo que inutilmente, mesclar o passado dele no meu futuro caleidoscópio. Me deixando arquitetar planos pra que as coisas façam sentido dessa vez.
O melhor jeito de duas pessoas se encontrarem é uma delas estando parada, já dizia o ditado e o dono do blog que eu vivo lendo. Mas também é certo que duas pessoas estáticas demais nunca vão convergir na sua provavel vida pacata. O fato é que nos encontramos no meio de um momento dinâmico e o que eu penso é que a nossa dinâmica vai divergir até nos pontos que nos convergem.
Em suma, essas coisas de sentimento tem um jeito engraçado de acontecer. Tu nunca sabes se estás no trilho. Se estás falando, fazendo e estando no lugar certo. Se não estás ocupando o lugar de outra alma que agora está por ai perdida.
E se não for teu lugar ali? E se tu estivesse muito melhor sozinha? E são esses ' e se' que fazem 'os cabelos, assim como as idéias, amanhecerem encaracolados.'

segunda-feira, setembro 27

Porque é difícil te negar.

É extremamente difícil te negar alguma coisa quando me olhas com essa cara de criança que quer o brinquedo caro da loja. É complicado manter firme a voz quando vens com esse timbre de quem acabou de acordar. Quando pegas na minha nuca e diz que é pra eu parar de besteira, que quer sussurrar que me adora no pé do meu ouvido. É difícil conter o riso quando dizes que eu sou inteligente ao resolver aquela continha besta de matemática e quando canta jorge ben jor pra mim.
É, moreno. é difícil te negar o meu sorriso de canto de boca quando rabiscas uma frase do Caio Fernando Abreu no canto do meu caderno, só porque sabes que eu suspiro com as frases dele. É surreal ter que ficar séria mediante as tuas mensagens as 3 da manhã dizendo que madrugada nenhuma tem graça se eu não estiver por perto.
E é por isso que eu te tenho aqui, intocável, ao meu redor por todo esse tempo. Mesmo que seja tudo uma falsidade ideológica da tua parte só pra me manter aqui. Mesmo que faças e fales tanto com o único intuito de cultivar uma guria enamorada por ti. Mesmo que seja tudo isso mesmo que me fales, ou que não seja nada. Me fazes permanecer aqui, suportando tudo por ti e pra ti. Tudo isso porque insistes em dizer que eu pareço um bichinho quando acordo com o cabelo todo bagunçado. Tudo isso porque não sei criar inimizade mesmo quando vens com as tuas grosserias, teus ciúmes e teus preceitos pra cima de mim.
Teu perfume tá aqui, moreno, na minha mão esquerda enquanto a direita pensa se atende o teu telefonema ou não. Se te dá uma chance de voltar ou se me permite te negar alguma coisa pelo menos uma vez na vida.
E eu te digo, é por isso que é tão dificil te dizer ' não'. Nem pra assistir pela terceira vez o mesmo filme no cinema. Nem pro jantar chato com a familia. Nem pra comer sanduiche quando eu desejava um sushi. Nem pro jantar a dois quando eu te pedia uma boate lotada. Nem pra me deixar assistir uma aula inteira sem o celular gritando teu nome. Nem pra nada.
O telefone ainda tá aqui, tocando. Na telinha do aparelho celular tuas mensagens pedem pra eu te responder. Mas não qualquer coisa. Anseiam a resposta manhosa que eu sempre dou. Aquele ' vem aqui, bora se dar mais uma chance mais uma vez. ' de sempre.
É moreno, te dizer não é complicado. E é mais fácil te deixar voltar. Não, não é por ser extremamente mais cômodo remendar o que se rasgou com o ex do que costurar um vestido novo com um outro cara. Não é preguiça de construir um nova casa. To voltando ( ou te deixando voltar, como queira) por conta daquele pacto de se apaixonar todos os dias pelo mesmo cara que toda moleca faz alguma vez na vida.
Vai, pega teu carro e vem aqui. Pega um filme que eu compro pipoca e refrigerante no mercadinho aqui do lado, que a gente volta a ser pelo menos 1/3 do que fomos antes.


segunda-feira, setembro 20

be happy

Esse não é um textinho melancólico pra te fazer pensar. Esse não é um textinho pra machucar o coração. Esse, aliás, nem é um textinho que fale sobre essas coisas do coração.
Na verdade é mais sobre aquelas coisas que acontecem com todo mundo: Compartilhar a felicidade. Porque alguém já dizia " não existe felicidade sem fazer merchandising do que se está vivendo" e é essa a verdade. Quando algo bom acontece, a gente precisa compartilhar, esse é um princípio humano.
As coisas podem até não estar dando tão certo, uma coisa ou outra pode não ter acontecido do jeito que eu gostaria, as minhas notas talvez nem estejam tão boas assim... Mas uma paz interior tá reinando aqui dentro, e eu não sei até quando ela vai ser soberana.
Chega uma hora que você deixa de ser capaz de suportar tudo o que suas costas doloridas, cheias de escolioses brandas, aguentam todo dia.E é ai que a ' mágica' do negócio acontece. É. É tipo aquele 'click' que se ouve no pé do ouvido. Você está ali, sentado, curtindo uma ressaca num domingo de manhã e pronto, as coisas parecem estar mais felizes do nada.
Papai disse que isso é a auto-realização que chega, mais cedo ou mais tarde. O padre que eu me confessei disse que isso é a luz do Espírito Santo com a intersecção de Nossa Senhora Desatadora dos Nós que iluminou a minha vida. O porteiro crente do meu prédio disse que foi o demônio que saiu de mim. A coordenadora do colégio falou que era a proximidade com as provas que deixam nosso humor mudar constantemente. Mamãe disse que era o fim da TPM e o meu irmão disse que isso só foi por causa da caixa de chocolates que eu devorei escondida na noite anterior.
Eu prefiro acreditar que foram as boas vibrações que resolveram chegar até mim. Sei lá, talvez em alguma outra galáxia distante da Via láctea algum ser pluricelular desejou muito que esse grãozinho de areia que eu sou tivesse uns dias leves, felizes.
E é o que se passa. Minha mãe grita pra eu tomar meu leite quente quando chego da aula. Eu faço as minhas palavras cruzadas antes de dormir, escrevo escondida e leio meus resumos pregados na parede do quarto. Meu irmão joga nintendo wii escondido do papai e não faz os deveres de casa. O papai toma a sua caipirinha sozinho as sextas e tudo fica em paz.
É, tem uma hora que a gente cresce, descobre pelo que vale a pena correr atrás, pelas amizades que fazem valer a pena lugar, e as coisas que fazem valer cada lágrima desperdiçada. Desperdiçar o tempo não, porque quando a gente gasta tempo com algo que gosta, não é perda de tempo. Mas que seja. É uma sensação boa sabe. E sensações boas assim merecem ser divididas com todo mundo. Pra provar que pra qualquer garota com pele, osso, sangue e entre eles uma camada cada vez maior de gordura pode sim ser feliz sem motivos e não conseguir levar tudo isso pro papel. Isso é o lance das coisas, o curso natural, tanto faz. É ser feliz só de olhar o sol se pondo ou descobrir que tem um sorvete de flocos com calda de chocolate te esperando de sobremesa do jantar.
É estou feliz, e pela primeira vez é por causa de mim. Das minhas pequeninas conquistas e percepções; por aquelas coisinhas que se luta tanto e quando menos espera, se conquista.

domingo, setembro 19

sobre sábados a noite.

Ela desceu do carro prata, ajeitou a blusa e foi em direção a porta de uma casa alternativa que a muito tempo ela não entrava.
Onze e vinte gritando no relógio no pulso esquerdo, no direito uma pulseirinha de ouro.
Quatro argolas douradas nas orelhas que o cabelo moreno escondia. Um copo plástico de cerveja de 500 ml numa mão e halls vermelhos na outra. A carteira de identidade anunciando 19 anos no mesmo bolso do celular e do dinheiro. O cheiro de cigarro irritava a alergia sensível dela, a musica não era das suas preferidas. Ela não ligava.
Entrou na casa com seus amigos. Sentados em uma mesinha de madeira, acharam graça dos nomes sugestivos dos drinks. Viraram uma tequila com batatinha frita. Uma, duas... subiram para ver a banda tocar. Tentaram cantar musicas que não sabiam a letra. Inventaram refroes e se balançavam de olhos fechados nas baladinhas- melancólicas. Riram do vocalista de moletom naquele calor. Ganharam um cd promocional no sorteio e o amigo realizou o sonho de subir no palco.
Meia noite e cinquenta. O celular não tocou. Ela se olhou no espelho do banheiro e fez um coque. Os anéis de cabelo caindo sobre os olhos. Típico.
Se sentou no bar. Alguns caras se aproximaram enquanto o amigo não voltava. Ela quase rosnava para qualquer um que chegasse, incluindo o cara de blusa rosa que lhe ofereceu uma bebida.
O chão começou a parecer mais consistente, o salto começou a incomodar e as paredes pararam de rodar. As idéias, assim como os cabelos, começaram a aparecer enrolados.
Aquelas caraminholas começaram a surgir em feixes inconstantes de pensamento, igual a essas tirinhas do jornal: curtas e diretas.
Não era saudade, não era submissão nem vassalagem. Era uma solidão. Dessas meio tristes, que fez com que ela se sentasse numa cadeira avulsa qualquer e pensasse. No rumo que a vida dela tem levado. Nos amigos cada vez mais distantes. Em como os olhos sempre expressivos dela agora só expressavam o seu cansaço de descaso com tudo em volta. A verdade é que ela perdeu aquele brilho, e isso nao tinha nada a ver com o fato de estar só.
Tá , na verdade até que tinha a ver com perder a capacidade de achar algo que a alegrasse nesses ultimos tempos, mas não tinha a ver, necessariamente com o fato de estar só. Tinha a ver com a cobrança que ela sofria violentamente nesses últimos tempos. Tinha a ver com o medo do que esperava por ela daqui a 4 meses. E tinha a ver com os caras que davam em cima dela também, talvez.
Tinha uma possibilidade de ser a saudade de alguma coisa que nunca existiu, mas ela sempre achou essa historia de sentir saudades do que nunca existiu vaga demais , então preferia descartar essa possibilidade.
Talvez fosse tudo isso junto, ou não fosse nada.
Quem sabe eram só os hormonios a flor da pele, nessa montanha-russa transcedental que era a adolescencia- e que ela rezava para não acabar nunca.



sábado, setembro 18

caras legais que aparecem

Conheci um cara legal hoje. Ele tinha 1,75 e um sotaque engraçado. Calçava tenis brancos e usava camisa azul bebe, da mesma cor que a minha carteira e a cor das minhas unhas naquela noite de sabado. O seu cabelo era batidinho e preto. Acho que se o deixasse crescer combinaria com o rosto de criança que ele tinha..
Ele seguiu todas as regras direitinho: Me pagou uma bebida quando me viu encostada no balcão, elogiou minha blusa branca.
Depois da 2ª dose de qualquer coisa, disse que meu sorriso era bonito e que minhas olheiras davam um ar de intelectual e de despojada ao mesmo tempo, tipo essas meninas que nunca tem nada a perder. Mas retirou essa parte quando olhou fundo nos meus olhos e viu toda a infantilidade por tras deles.
Ele não espichou o olho pra saber quem era quando o meu telefone tocou. Disse que eu era a mais bonita da festa e que nossos celulares eram iguais.
Ele tinha aquele perfume bom que fica empregnado na nossa pele.
Me chamou pra dançar e segurou forte na minha cintura, deixando uns seguros 5 centrimetros entre nós.
Quando eu disse que ia embora me ofereceu carona e refez o pedido quando percebeu a minha dificuldade em achar um taxi naquela hora da manhã. Me acompanhou até a saida, me deu um beijo no canto da boca e anotou o meu numero no antebraço de caneta permanente. Acenou quando eu fechei a porta do carro branco e mandou uma mensagem de boa noite duas horas depois.
No dia seguinte fomos ao cinema. Ele pagou a minha entrada e dividimos a pipoca. Rimos das pessoas na fila. Ele me explicava as partes do filme que ele já sabia de cor com aquela voz de "temos todo o tempo do mundo". Me levou para casa, me explicou quimica mesmo tento passado pela escola á uma coleção de anos. Chamou meus pais de senhor e senhora. Beijou minha testa ao se despedir ás 1 da manhã. Uma hora depois deixou na caixa de mensagens do celular, com aquela voz de criança com sono " só pra te desejar boa noite, Morena."

baseado em uma conversa de msn

- Novidade ou decepção?
- o que?
- to namorando. E ai, achas que isso é uma novidade ou uma decepção?
Ela olhou com uma cara confusa
-Como estares namorando pode ser uma decepção? É uma novidade, sem duvidas, e uma novidade muito boa! eu fico feliz por ti.
Ela abriu aquele sorriso de sempre. Mostrando os dentes da frente e apertando os olhos até ficarem com proporçoes orientais
-É, todo mundo me diz isso. Mas não sei se eu tô fazendo a coisa certa sabe, Anne..
- Como namorar pode ser a coisa errada? Não gostas dela, é isso?
- Não é que eu não goste.. É só que eu não sei se eu gosto dela o suficiente pra namorar, entende?
- Sabe, Anthony, nem todos os casais começam completamente apaixonados. Alguns deles nem se gostam no começo do namoro. Mas o amor, a necessidade de se ver, surgem com o tempo..
-E se não surgir? Não tenho experiencia com isso. Bem, você sabe como ninguém que estar namorando não faz parte do meu cotidiano..
- É, eu sei. E se não nascer nada, voces terminam. Namoror não é pra casar, Anthony. É pra tentar arranjar um pouquinho de felicidade ao lado de alguém, e só.
- é, talvez seja isso mesmo.

Ela não entendia isso. Todos tinham uma necessidade de estar com alguém da mesma forma que tinham medo de se engajar. E isso era confuso. Na verdade, todos procuravam enlouquecedoramente um par e quando encontravam, tinham tantas duvidas e tanto medo de fazer algo errado e se preocupavam tanto em estar no caminho certo que se esqueciam que a melhor coisa de todas era não pensar em nada. Deixar as coisas fluirem pro caminho que elas tomam naturalmente, e só. Sem mistérios, sem segredos, sem fórmulas mágicas, sem cartomantes dizendo em tom de gozação o que o futuro lhe reserva. Sem noites chorosas sob o edredom . Ela era pró-felicidade. Pró noites de sabado deitados no sofá assistindo filmes alugados. Pró dia das garotas pintando as unhas e falando mal dos outros. Pró dia no shopping com a mãe e a avó.Pró noites descomplicadas. E não entendia porque todos não eram assim também.

terça-feira, setembro 14

monólogo 1

(...) Enquanto isso eu espero aqui tu abaixares essas armas e escudos que te cercam e ergueres a bandeira branca da nossa paz.
Porque agora eu tinha todo o tempo do mundo. Tenho tido muitos dias felizes, quietinhos, calados, mas felizes. E aquela saudade que queimava por dentro se extinguiu com o tempo.
Veja bem, a cicatriz ainda está aqui, mas a gente só vê um futuro bonito na frente quando esquece o passado. E eu fui adiante quando superei os erros que cometi e tirei de mim tudo o que me machucava por dentro.
Agora era aquela saudade bonita de levar, que tinha o cheiro de manhã de verão quando a gente acorda bem cedinho pra ir ver o mar da janela do apartamento.
Ainda era saudade, mesmo que agora me fizesse bem. E como toda boa saudade, dói um pouco.

sábado, setembro 11

O que resta

- Tu te lembras da gente tomando sorvete no inverno?
- lembro, Anne
- E da caixinha de musica? E daquele almoço de sábado que eu deixei cair o prato no restaurante e tu brigaste comigo? Te lembras?
- Me lembro, me lembro. Lembro de tudo o que a tua memória puder recordar. E mais um pouco, até.
Ela ficou parada, digerindo a idéia dele ainda se lembrar de tudo o que ela pensou que ele tivesse esquecido. Deixou uma fenda se formar entre os lábios rosados.
Ficaram ali, olhando o nada por uma coleção de minutos. Com um estalo, ela começou a falar:
- É bom ouvir isso de ti. Quer dizer que eu entrei naquele lado da memória que só as coisas realmente boas entram
-você é uma memória boa pra mim. - ele falou baixinho
- Sabe o que dizem? Que quando permitimos que alguém entre lá, no cantinho das boas memórias, estamos fadados a lembrar dela pra sempre
-E que belo fado esse meu,de te recordar pra sempre.

Anne deu um beijo na ponta do nariz dele, o olhou com aqueles olhos castanhos pequenos, deu um sorriso que era capaz de mostrar o estado da sua alma e saiu correndo para o parque. O seu vestido branco e curto esfumaçando ao seu redor.
Ele ficou lá, sentado na grama que não era tão verde. Não conseguiu conter o sorriso que se formou involuntariamente no canto dos lábios, ficou pensando em Anne.
Talvez ela não fosse ainda tão bonita, talvez não esteja mais saindo aos sábados nem indo a manicure toda semana.A pele estava meio descuidada, e o cabelo curto não caiu tão bem nela
Mas, apesar de tudo, Anne era feliz.

baseado em um fato - quase- real.

No ápice da minha solidão, desci até a mercearia barata do japonês vizinho e comprei um vinho. Abri a porta meio pensa do apartamento, joguei a roupa de um jeito qualquer sob o sofá bege de mau-gosto que mal e porcamente decorava aquele quarto sujo de hotel.
Liguei a água quente da banheira branca retangular, me deitei ali naquela água que fervia enquanto o frio de 2 graus queimava do lado de fora da minha janela do 10º andar.
Tomei aquele vinho chileno comprado com pesos, trocados na casa de cambio da esquina, e chorei.
Aquele choro baixinho, resignado, concentrado, comportado, que faz todo o rímel e lápis de olho borrarem. Sentindo os olhos irem se enchendo de água, e desaguando rumo ao meu peito imerso na água e solidão.
Perdoe-me o pleonasmo, mas eu chorei um choro que era de dar dó em qualquer coração de pedra. Que ninguém jamais supôs que iria existir, tampouco soube da sua existencia. Aquele que só a gente fica sabendo e ponto final.
Horas e horas ali, sentindo cada parte do corpo ir enrugando, virando taça após taça do que outrora fora um convidativo vinho tinto... E que agora era motivo de repulsa, para se lembrar de tudo o que foi feito, de todas as forças gastas em algo que não levou em nada.
E não pense que estou me referindo a um único ramo da minha vida. Estou me referindo a todos eles. A todas as imperfeições daquela vidinha meia boca que eu tenho levado nesses ultimos anos.
Não há culpado nessa história, só o engraçado rumo que as coisas levam, de nada estar suficiente, e de cada vez mais sentir que, mesmo com todo o esforço, mesmo com todas as madrugadas perdidas, não se chegará a alugar algum.
É triste e batido, mas chorar realmente lava a alma. Tira do peito tudo aquilo que impregnava, enchia de mofo e rancor uma coisa que tinha de tudo pra ser linda.
É triste, meu caro, mas quem sabe ali, depois de toda aquela sessão de martírio as coisas começassem a fazer algum sentido e aquele tempo constantemente nublado dentro de mim começasse a clarear..

amostra gratis

Ultimamente tenho me contentado com o muito pouco-quase-nada que tem me oferecido.
Aquelas migalhinhas de qualquer-coisa que sempre me ofereciam e eu, receosa, negava. Hoje vejo que aceita-las é bem mais sensato do que esperar por algo mais complexo bater na minha porta.
Aceitar que são essas pequenas coisas, essas amostras grátis de sentimentos, de matar uma aula ou outra pra ir tomar um sorvete, esses jantares surpresa num sábado a noite sem a perspectiva de se ver no dia seguinte, sem ficar esperando uma mensagem as 3 da manhã anunciando saudade são sim bem mais saudáveis do que aquela cobrança toda.
No final das contas, uma janelinha dentro da gente acaba abrindo e mostrando que é isso que realmente vale a pena. Viver a base do deixa-a-vida-me-levar ( vida, leva eu) do Zeca pagodinho. Ou o you only live once, tanto faz.
Acontece que não criar expectativas é tão mais libertador. Porque mesmo que nada aconteça não existe frustração. Porque não se esperava nada de nada mesmo.
Acho mesmo que essa é uma das coisas que a gente só aprende assim, do nada. Um dia tu acreditas que as coisas tem que ser todas perfeitinhas, tem que tem um jeito todo especial de acontecer, e se não for do jeito que se planeja, tens o direito de ficar de cara emburrada. Mas na verdade, não planejar nada que é o certo. Mesmo que saia uma coisa bem pequeninhinha no lugar de uma grandiosa, acabas saindo no lucro.

segunda-feira, setembro 6

falsidade ideológica.

ela suava nas mãos, a blusa cinza colada no corpo a lembrava que o sol de meio dia castigava. Ela andava tão rápido, revendo mentalmente tudo o que iria dizer. A ruga que marcava a testa dela camuflava a leveza que ela sentia naquele momento.
Ela abriu as portas de metal do predio dele, caminhou lentamente, com um ligeiro sorriso no canto inferior dos lábios e entrou no elevador social. O mesmo elevador que ela tentava desmembrar de tanta coisa boa. Repensou no diálogo já formulado na cabeça antes de apertar na campainha.
- O que voce faz aqui?
- Diz que você não sente saudades minhas, não me ama mais, que eu sumo de uma vez da tua vida.
- Mas o...que? você tá ficando louca só pode..
- Louca ou não, só me diz isso. não te amo, não sinto saudades.
- Pra que? escuta aqui, eu sei que foi tudo meio confuso..
- Confuso ou não, não vem ao caso. Voce quer que eu vá embora, não quer? só me diz essas duas coisas.
- Olha, viestes aqui só pra me pedir isso?
ele revirou os olhos e tentou fechar a porta, mas ela colocou o seu pé, calçado com uma havaiana rosa, no vão da porta com a parede
- Só diz isso. Que não me ama e que não sente saudades, que eu saio da tua casa, da tua vida, como se eu nunca tivesse existido.
- Você é perturbada.
- Sim, eu sou
- Você é doente
-Sim, talvez eu também o seja.
Ela também era forte, e ele sabia disso
- Eu não preciso disso...
-Eu sei, mas eu preciso. só diga
-Escuta aqui...
_ só diz.
- Olha só, quero entender o teu propósito com isso.
- Te esquecer. ouvir da tua boca que eu não sou mais nada pra ti.
- Você é louca. Já te falaram isso? Voce quer o que, que eu diga que te ame e ainda sinto saudades e volte correndo pra você? as coisas não funcionam assim, Anne. Você não tem tudo o que quer nas mãos.
- Você percebeu o que eu pedi? só pedi pra você falar que não me ama e não sente saudades. não que você volte pra mim.
- Pois bem, não te amo, não sinto saudades.
- Obrigada
Ela deu aquele sorriso que era capaz de desarmar um exército. Nada podia lutar contra ele. Virou de costas, puxou a porta do elevador e saiu para as ruas da cidade, exalando satisfação.
Ela atravessou a rua, e sentiu o celular vibrar no bolso traseiro do shorts jeans rasgados.
" Eu te amo, sinto a tua falta, me perdoa."
E toda aquela armadura que ambos vestiam caiu. Talvez, era isso que ela quisesse de verdade. Que mesmo que ele negasse diante dela, soubesse que lá dentro de alguma gaveta bagunçada dele, ele também não a esqueceu.

Veja bem.

Não importa se é o certo, ou o errado. importa que é o que eu sei fazer com as armas que eu tenho, e é só isso. Sem duplas intençoes, sem jogatinas do destino.
E não me venha com essa de " voce traiu todos os seus ideais" até porque eu nunca tive ideal nenhum. Veja bem, eu não deixei de lutar pelas coisas que pouco a pouco eu fui construindo com as minhas mãos a muito calejadas. Eu nunca tive ideal nenhum e as coisas que eu construi, bem, foram por pura sorte. Acaso, seja lá o que for.
Que coisa mais individualista, eu só estava aqui era pra salvar a minha vida e o sopro de felicidade que ainda restava aqui. Eu só queria me manter aqui, inteira, sem ter que, necessariamente, lutar com afinco por algo.
Olha, pra ser sincera, eu queria mesmo era não esperar nada de nada. Não manter falsas esperanças sobre coisas que muito dificilmente aconteceriam. E se, caso acontecessem, teriam uma grande chance de acontecerem de um jeito bem mal feito.
Digo, preservar esperanças e anseios e todo esse resto é importante e tal.
Mas não foram poucas as pessoas que me disseram que " a gente precisa de algo concreto para se segurar" E eu rebati. Só me seguro naquilo que realmente for meu. Só no que eu puder dizer, com o peito aberto, que eu conquistei a duras custas. Graças a minha perseverança. Graças a minha boa vontade. E que eu sei que, por eu ter conquistado, vai se manter aqui comigo.
Sinto, mas até esses relacionamentos mundanos são assim as vezes. Amor também enche de erva daninha, já dizia o poeta. E o mesmo principio se aplica a todo o resto. Não são todos, vou admitir. Existem aqueles que se formam, e ficam pra sempre ali, existindo, coexistindo com algo mais forte, ou mais fraco. Mas existe relacionamentos que não dão em nada.
E a gente se apega
E a gente se desespera
E a gente chora
E a gente sente saudade
E a gente acaba por deixar os melhores momentos das nossas vidas baterem na nossa porta e, cansados, irem embora. Tudo por causa dessa história de manter as idéias e ideais e não trai-los. E não mudar de ideologia. E sempre pensar se isso é o certo ou o errado. Veja bem, não é um caso de estar certo ou errado, é o caso de fazer aquilo que vai melhorar as coisas.
Faça-me o favor. You only live once. Pra que desperdiçar tantas células e tantos genes e todo o resto com coisas que não te levam a lugar nenhum?