Liguei a água quente da banheira branca retangular, me deitei ali naquela água que fervia enquanto o frio de 2 graus queimava do lado de fora da minha janela do 10º andar.
Tomei aquele vinho chileno comprado com pesos, trocados na casa de cambio da esquina, e chorei.
Aquele choro baixinho, resignado, concentrado, comportado, que faz todo o rímel e lápis de olho borrarem. Sentindo os olhos irem se enchendo de água, e desaguando rumo ao meu peito imerso na água e solidão.
Perdoe-me o pleonasmo, mas eu chorei um choro que era de dar dó em qualquer coração de pedra. Que ninguém jamais supôs que iria existir, tampouco soube da sua existencia. Aquele que só a gente fica sabendo e ponto final.
Horas e horas ali, sentindo cada parte do corpo ir enrugando, virando taça após taça do que outrora fora um convidativo vinho tinto... E que agora era motivo de repulsa, para se lembrar de tudo o que foi feito, de todas as forças gastas em algo que não levou em nada.
E não pense que estou me referindo a um único ramo da minha vida. Estou me referindo a todos eles. A todas as imperfeições daquela vidinha meia boca que eu tenho levado nesses ultimos anos.
Não há culpado nessa história, só o engraçado rumo que as coisas levam, de nada estar suficiente, e de cada vez mais sentir que, mesmo com todo o esforço, mesmo com todas as madrugadas perdidas, não se chegará a alugar algum.
É triste e batido, mas chorar realmente lava a alma. Tira do peito tudo aquilo que impregnava, enchia de mofo e rancor uma coisa que tinha de tudo pra ser linda.
É triste, meu caro, mas quem sabe ali, depois de toda aquela sessão de martírio as coisas começassem a fazer algum sentido e aquele tempo constantemente nublado dentro de mim começasse a clarear..
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