sexta-feira, outubro 21

Previsões.

Era uma tarde de sabado quando eu passei pela enésima vez pela porta marrom escuro da casa. Pedi licença mesmo sabendo que só estávamos nós dois lá e deixei minha havaiana preta ao lado do sofá da sala, como de costume.
Eu precisava de uma cama. Segui o caminho de olhos fechados até o quarto quadrado, joguei a bolsa na cadeira do computador, me joguei de bruços na cama e me enrolei no edredon vermelho, mesmo que estivesse um calor de 30 graus lá fora.
Ele ligou o ar condicionado, fechou a porta do quarto e se sentou do meu lado. Enterrei minha cara no travesseiro. Naquela altura do campeonato já não pensava mais no rímel que borraria, não pensava mais no cabelo bagunçado, nem na tela do celular que acabou de cair no chão. Não pensava mais no meu short jeans rasgado, se estava curto demais nem se era falta de educação eu me deitar naquela cama sem ser convidada. Não parei para pensar em como as coisas tinham se desenvolvido na ultima semana, nem no porque das briguinhas, das criticas, dos ciumes. Não avaliei nenhum motivo real para eu guardar tudo pra mim, nessa minha mania de sentir tudo demais, mas compartilhar de menos. Logo eu que sempre pedi para que ele me deixasse saber de todas as desconfianças, de todas as caraminholas que passassem pela cabeça dele, guardei as minhas e não mostrei pra ninguém.
Eu só conseguia pensar nos olhos escuros dele me fitando, implorando pra eu virar a cabeça e deixar de birra. Dizendo naquele silêncio que precisava ter certeza que estava tudo bem.
Eu não virei. Fiquei ali, imóvel, relutante. Ele fazia carinho na minha nuca, passando as unhas curtas perto da minha orelha, enquanto eu puxava o ar cada vez com mais força. Ele começou a cantar alguma musica triste, sobre como ele poderia tentar me concertar e como as luzes me guiariam para casa. Nunca tinha o ouvido cantar musica nenhuma.
Depois de meia hora eu virei. Sentei na cama e perguntei o que tinha acontecido com a gente com uma voz mais falha do que a que eu tinha imaginado.
Ele se virou, colocou uma mecha de cabelo minha atrás da orelha. Brincou com o meu brinco comprido e dourado e sussurrou baixinho, como que para não ouvir a própria voz e disse num tom de partir o coração " Não sei, morena".

segunda-feira, setembro 26

Sobre caras que nunca vão.

Ele é aquele tipo de pessoa que nunca se esquece. Que lembra de aparecer em momentos pontuais. Ele se lembra de mandar um sinal de vida, de fumaça, uma corrente de energia via alguma onda não codificável a olho nu vez por outra. Ele sempre se lembra de não me deixar esquece-lo, mesmo que ele tenha me esquecido.
Ele é do tipo de cara que passa tempo, mês, ano e continua lá, me fazendo pensar como teria sido. Do como foi, me fez esquecer de todas as coisinhas ruins. Me fez o tornar parâmetro pra todos os outros caras por um bom tempo.
Por um bom tempo. foi um bom tempo apesar de. Foi uma coisa não totalmente boa, inigualável, que fez bem pra alma e pro coração, mas foi o tipo de acontecimento que a gente sempre tem que passar uma vez na vida pra aprender como o mundo é, como os caras são. Me ensinou que temos sempre que saber de tudo pra saber o que esperar das pessoas. Me ensinou inclusive que as pessoas são capazes de tudo, mesmo que a gente não acredite. Assim como ele foi. Ele foi o responsável pela mudança que aconteceu aqui dentro. Me tornou mais forte, e me deu experiencias suficientes pra saber do que esperar de tudo e de todos. Mas como eu não sou como ele, não me lembrei de agradece-lo. Na verdade duvido até que ele faça questão dos meus agradecimentos.
Ele em suma, é o tipo de cara que abre a porta dizendo que vai embora mas sempre volta pra saber como estou, o que faço e pra matar as saudades que aparecem de vez em quando. Mas chega uma hora que se cansa, bate a porta com força e promete nunca mais voltar- e cumpre. Depois disso porém, mesmo que nem ele saiba, nunca vai embora de vez. Sempre fica por aqui rondando em algum canto da memória e sempre tem uma mensagem sua guardada em algum canto do celular. Ele é o tipo de cara que tenta, mas nunca se vai.

sexta-feira, setembro 2

Falta de coragem.

Desculpe a minha falta de coragem em te dizer pessoalmente isso tudo que está escrito aqui. Me desculpe, mas as vezes eu nos acho tão olá-bom-dia-como-vai-adeus que não me resta tempo, espaço ou oportunidade para dizer. As vezes acho que se eu soltar um questionamento ou outro você vai dar um pulo para trás e me chamar de louca.
Aconteceu tudo de uma forma tão estranha. É eu sei, esse tipo de coisa sempre acontece de uma forma estranha pra gente. Pros outros é sempre uma coisa tão previsível, era tudo o que poderia ter acontecido.. pena que com a gente não é assim, com a gente tudo sempre vem de onde e quando menos se espera . Te digo que no começo eu não queria nada. E digo isso com todas as letras e sem medo de te ferir - não sei o que te fere. E, garoto, é ai que está o nosso problema. Não sei o que te fere. Não sei tuas experiências, não sei teus traumas, teus pontos fortes, teus pontos fracos. Não sei se és capaz de ferir. E acho que essa é a pior parte.
Eu gosto de saber dos traumas dos outros. Gosto de saber daquele passado não convidativo. Gosto de saber o terreno que estou pisando. Das feridas feitas, das recebidas, dos cortes superficiais e daqueles de 10 cm de profundidade.
Gosto de saber de tudo para estar preparada pro que pode vir. E você não gosta de contar.
Sei que isso é pouca coisa, mas acarreta uma infinidade de outras coisinhas que vão se juntando e formando uma coisa grande.
Sei que é cedo. Sei que a roupa acabou de ser estendida no varal e ainda está molhada e que ela tem que secar á sombra - se secar no sol a pino se estraga, e eu não quero que ela estrague, não dessa vez.
Acontece que eu me acostumei a ter todas as minhas roupas secadas ás pressas, colocadas sob o sol do meio dia, atrás da geladeira... O destino sempre me fez ter que secar as minhas roupas assim, sem me importar se isso iria desgastar o tecido. Me acostumei com isso. Quando coloco uma roupa para secar, espero que ela seque rápido, mas eu sei que não pode ser assim.
To aprendendo aos poucos a ter paciência. A pegar um banquinho e ficar ali, esperando as gotículas de água evaporarem uma a uma. Assim não corro o risco de ferir o tecido. Não corro o risco de te ferir. Não corro o risco de me ferir.
É isso garoto. Queria que as coisas fluíssem mais rápido entre a gente. Mas tenho um medo gigantesco de querer isso de verdade. Não quero que dê errado dessa vez. Cansei das coisas dando errado. Quero, mais do que uma roupa secada ás pressas, que dê certo pelo menos uma vez.



segunda-feira, agosto 15

Voltar.

Eu voltei pra cidade depois das férias. Mas Deixei muita coisa na praia. Deixei a insegurança, deixei noites sem dormir, deixei uma paixão mal acabada e que volta e meia voltava pra me atrapalhar. Na verdade, deixei algumas paixões. Deixei o meu ciume e ciume nos outros. Deixei umas sandálias havaianas perdidas na areia fina, deixei minha mesada, meu cansaço, minha preocupação. Trouxe algumas coisas comigo, também. Trouxe umas complicações a mais, um cabelo necessitado de hidratação, umas musicas e fotos novas no Ipod, uma queimadura de cigarro na altura da cintura, uns números a mais na agenda telefônica daquele meu velho celular rosa. Trouxe uns caras - uns poucos sobreviventes do verão. Trouxe uns amigos mais perto, uns amigos mais longe, uns amigos novos e uns velhos também. Umas brigas, umas pazes, umas intrigas e umas falta de comunicação.
Mas na minha contabilidade pré- segundo -semestre, trouxe mais coisa boa e deixei mais coisa ruim. Melhor assim. Voltei mais leve, Mais sem preocupação. Com as minhas complicações de sempre, mas sem aquelas coisinhas ruins que teimavam em teimar comigo.
Voltei, essa é a verdade. Quando eu mais pensava que eu iria ficar pra sempre estagnada naquele por-do-sol alaranjado, bem naquele instante em que o sol tá meio no céu, meio no mar, bem na linha que separa os dois, e segundos depois fica tudo azul, laranja e rosa, eu voltei. E bem quando eu pensei que ficaria agosto, setembro e todo o resto do ano naqueles minutos do por-do-sol. Eu queria ficar. Eu queria esquecer. Eu queria me lembrar só daquilo. Queria estar no meio de muito concreto e só pensando em voltar pro vento salgado da praia.
Me surpreendi comigo. É sempre assim, julho sempre vem surpreendendo todo mundo. A mim pelo menos, sempre surpreende. Sempre traz umas percepções diferentes. Voltei mais eu, bem quando eu pensava que eu esqueceria quem eu era. Voltei meio complicada, com coisas demais pra resolver, pra pensar e pra avaliar, mas voltei, penso assim todos os dias. Voltei pra minha realidade feliz, de bem comigo, com os outros, com o meu presente, com o meu futuro e quem diria, voltei de pazes com o meu passado.
Eu voltei, enquanto muita gente ficou.

segunda-feira, julho 11

regina brett

Escrito por Regina Brett, 90 anos de idade, que assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio.

"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."

1. A vida não é justa, mas ainda é boa.

2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno .

3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.

4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.

5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.

6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.

7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.

8. É bom ficar bravo com Deus. Ele pode suportar isso.

9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.

10. Quanto a chocolate, é inútil resistir.

11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.

12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.

13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.

14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.

15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.

16. Respire fundo. Isso acalma a mente.

17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.

18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte.

19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.

20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta.

21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.

22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.

23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.

24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.

25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..

26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?'

27. Sempre escolha a vida.

28. Perdoe tudo de todo mundo.

29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.

30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo..

31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará.

32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.

33. Acredite em milagres.

34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.

35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora.

36. Envelhecer ganha da alternativa, morrer jovem.

37. Suas crianças têm apenas uma infância.

38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.

39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.

40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.

41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.

42. O melhor ainda está por vir.

43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.

44. Produza!

45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.

segunda-feira, junho 20

O que não dá pra remendar.

De repente me deu uma vontade enorme de te perguntar onde foi que deixou de ser o que era antes e passou a ser o que é agora.
Me deu vontade de te ligar e te mandar parar de falar e só me escutar. Te perguntar em qual momento não era mais a gente. Aliás, queria te perguntar também em qual momento deixou de ser eu e você e passou a ser você&eu assim, tudo junto. Me deu uma vontade inexplicável de pegar o teu endereço de bater na porta da tua casa e perguntar quando foi que tudo desandou.

Tô querendo esquecer tudo o que todas as minhas amigas dizem o tempo todo desde quando eu te conheci, tirar da cabeça esse " ele-está-te-enganando" que fica zunindo dentro do tímpano. Elas não sabem de nada. Você não sabe de nada, e veja que coisa: eu também não.
Eu queria entender, sabe. Porque eu me forço a acreditar que é só uma fase ruim, é só um problema complicado de resolver mas que não tem nada a ver com a gente, que é uma briga com algum amigo, a mãe que tá doente ou eu que tô mais sensível. Quero mesmo acreditar que é caraminhola da minha cabeça e que tudo tá do jeito que esteve nesse ultimo mês: tudo bonitinho, ajeitadinho, cada livro no seu lugar e uma xícara de chá gelado em cima da mesa.
Mas é só analisar os fatos pra ver que tá tudo realmente fora do lugar, não somos mais o que eu queria - e imaginava- que fossemos. Porém, mesmo assim eu que to fazendo tempestade em copo d'água. Tô dramatizando algo não dramatizável.
E eu explico porque dese meu drama todo: Eu morro de medo de pensar demais nas pessoas. Porque é batata: eu começo a pensar um pouquinho e, você sabe, uma coisa puxa a outra, e quando eu vejo já aumentei a minha coleção de caras para esquecer. E nada mais terrível do que uma lista de caras para esquecer.Na verdade, é horrível ter que esquecer. Qualquer coisa. Não importa o que qualquer coisa essa coisa seja. Ter que dividir o tempo para pensar um pouquinho em cada caso mal resolvido, em cada briga sem fundamento,em cada coisa que tinha tudo pra ser, foi feito pra ser, mas não foi, em cada " eu te avisei" e " você não é bom o bastante pra mim".
Então, eu queria te perguntar, por fim, se o problema foi os meus rodeios, ou as coisas bestas que eu digo. Se você se incomodava de eu ter que dormir sempre cedo ou de ter que me levar pra assistir aquele filme feito para chorar que tava em cartaz, porque sabe que, se não me levasse, eu acharia outro cara para me levar.
Eu queria te perguntar qual foi o problema e quão grande ele é. Sabe, eu tenho um bastão de cola guardado por ai em algum lugar. E caso não resolva eu tenho uma linha e uma agulha. Sei que é difícil consertar esse tipo de coisa, e que talvez seja até impossível remendar, mas tentar não tira pedaço....

terça-feira, maio 24

Faz de conta

Xingar alivia a dor. Por isso eu xingo. Digo baixinho pra ninguém ouvir alguns palavrões que aprendi na escola na sexta série. Digo algumas palavras bonitas mas com significado feio, que pouca gente fala e entende só por não terem a curiosidade de procurar palavras no dicionário.
Xingo, admito. Porém não gosto quando os outros me veem xingar, porque eles pensam que só xinga quem é desregulado, quem não tem educação, quem é fraco e sem argumentos. E eu gosto que me imaginem como essas mulheres sensatas, comedidas, racionais, e que usam blazer rosa com saia até o joelho combinando e salto preto bico fino, por mais que eu não seja assim.
Na verdade gosto que me vejam forte e educada, que nem se quer imaginam que, depois de qualquer besteira ruim que acontece pra mim eu choro , e choro. E que cogito todas as noites me mudar para o espaço, só porque lá é impossível soltar lágrimas por falta de gravidade. E que corro pros braços da minha mãe, e que ela, já sabendo dessas minhas fases ruins, senta comigo na sacada e me conta alguma história bonita de quando ela era menor.
Gosto desse teatrinho, no qual sou péssima atriz e acabo deixando todos verem aqueles medos que eu tenho escondido debaixo da cama, mas sigo e finjo que ninguém os viu. Alguns fingem que também não os viram, e seguem sendo atores melhores que eu nesse meu faz de conta, fazendo me tornar uma melhor atriz também. Porque é assim que as coisas são: a gente só melhora quando joga com alguém melhor do que a gente, já dizia algum desses escritores que eu gosto. Alguns no entanto, ao descobrirem o que tem por detrás dessa minha máscara fazem questão de me criticar. De apontar os defeitos que a muito tempo eu sei que tenho e que deixei de tentar combate-los só porque já me acostumei com eles. Eles me criticam por atuar, e eu rio. Quem nesse mundo não atua?

quarta-feira, maio 18

-

"Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol produzem na terra uma fermentação, que forma o húmus; a semente, caindo aí, brota com rapidez. Depois das grandes dores e das lágrimas torrenciais, forma-se também no coração do homem um húmus poderoso, uma exuberância de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que aí penetre, é semente de paixão, e pulula com vigor extremo."

A pata da gazela.

quinta-feira, abril 7

freedom.

Eu quero viver tudo, e agora. Bater tudo num liquidificador e beber de uma vez. Ser feliz. Ser triste. Ser o suficiente para sanar essa minha necessidade de ser tudo, completa. Quero viver como se fosse morrer amanhã. Porque aqui não tem espaço para as incertezas da estrada de chão que vem pela frente. Aqui tudo é possibilidade de escolha.
Eu quero mais dinâmica. Me livrar da estática. Me livrar da preguiça, do que me puxa para baixo e leva pro fundo do poço. Não quero saber do deixa-pra-amanhã de todo dia. Quero ser feliz e não voltar. Ser orgulho e não arrependimento. Ser sorriso no canto do lábio e não rancor.
Eu quero ser exemplo pra ninguém. Só pra mim. Ser passado e presente. Futuro eu deixo pra pensar depois. Ser + eu - outros. Ser pra mim e não pro vizinho.
Eu quero ser volta ao mundo. Festa. Risada no meio da aula de química. Independente. Pé no acelerador as sete e quinze da manhã. Musica. Ser poema, nota e melodia. Ser arte. Ser vento nos cabelos e bossa nova nos ouvidos num fim de tarde laranja e rosa de frente pra um rio. Ser sol sal e mar. Ser livre pra ser o que quiser. Quando quiser. Onde quiser. Porque quiser.
Eu quero ser eu. E que ninguém se meta nisso.

sexta-feira, março 11

o que sobrou das nossas atuações.

Faz tempo que meu celular não anuncia uma mensagem tua, que a janelinha laranja não pisca com o teu nome na tela plana no meu computador.
Tem muitos dias que eu não sei que é ouvir a tua voz me desejando boa noite pelo aparelhinho rosa que fica estagnado no meu quarto. Querido, faz tempo que me dissestes que independente do que eu diga ias continuar colocando atrás da minha orelha os anéis de cabelo marrom que escorrem do meu rabo de cavalo mal feito, ias continuar me chamando pro cinema quando as tardes forem tristes e que teu ombro ia estar ai pra mim, assim como a tua paciência pra me explicar pela décima vez a questão de matemática que eu não soube fazer.

Moreno faz muito tempo que não falo de ti. Não te cito nos meus textos não falo de ti pros meus amigos nem pra mim mesma e nem antes de dormir naquelas noites que insisto em lembrar de muitas coisas que eu deixei pra tras.
Demorou mas não me lembrava mais de como era lembrar de ti. De como era tentar remontar a tua voz no meu inconsciente. Da ultima vez que tentei teu tom sarcastico ressoava dizendo alguma coisa sobre como eu era teleguiada ( palavra esta presente em todas as tuas desculpas de porque a gente nao dar certo). Da ultima vez que tentei lembrar do teu jeito ele ainda me doia. Rasgava aquela ferida recem cicatrizada e me forçava a passar por todo o processo de cicatrização de novo.

Da ultima vez que eu te vi o mundo ainda desandava. Era outubro e a batida de alguma musica incomodava meu timpano. Ou a bigorna estribo ou qualquer coisa desssas. Da ultima vez me doia tanto. E o que me doía mais do que tudo era não te ter no dia seguinte.
Sabe moreno fazia tanto tempo que eu não te lembrava que até foi bom te lembrar agora.

O sorriso montou no canto do lábio quando vi uma foto tua perdida numa dessas pastas remotas que a gente sempre tem no computador com alguma foto sobrevivente do passado que naufragou. Um sorriso bonito me fez companhia enquanto eu tentava lembrar da ultima vez que eu tinha visto essa foto. Não consegui me lembrar. Tentei puxar na memoria então algo de bonito que a ente viveu. Qualquer dessas coisas bestas de adolescente com o namoradinho. Lembrei das nossas fugas dos nossos planos B. Dos nossos pseudo almoços. Lembrei de muita coisa.. Mas é estranho querer lembrar o passado e ter a impressão do que aconteceu foi com outra pessoa e não com a gente. Te ver e não ter a impressão que te conheço, como se fosses só mais um desses caras bonitinhos que por alguma razão a gente guarda uma foto ou outra. Como se fosses um desconhecido que agora és pra mim. Faz tanto tempo né moreno...E eu guardei tanta mágua. Besteira .. tanta besteira. A gente é mesmo besta algumas vezes na vida, principalmente quando quer provar pra si mesmo que se quer ser inesquecivel na vida de alguem e esse alguem não segue o script.
Sabe, eu sinto falta. De tudo o que fomos, que não fomos e que em segredo sonhamos em ser. E lá no fundo me arrependo de não ter posto mais coragem quando foi inevitável uma resposta final. Foi medo sim, foi medo de estragar, de dar uma denominação pra tudo o que até ia bem sem nome algum. Mas talvez essa historia de não saber ao certo o que um era pro outro só fosse bom pra mim. Eu me envolvia, mas não precisava admitir, eu sabia o que queria, mas não precisava contar. Foi nessa de omitir essas pequenas coisas sem importância e escancarar outras verdades que teci o fim. Ou talvez fosse tudo culpa dessas verdades escancaradas. Saber demais um do outro, todos os defeitos escondidos debaixo do tapete e esquecidos atrás da cama que só se descobre a muito custo. Defeitos demais entrelacados com as qualidades e talvez não tenhamos sido fortes demais. OU eu devesse falar por mim, já que eu que fui fraca pra não suportar.

Agora sei que estás numa estradinha de terra batida pra bem longe de mim e de tudo que um dia sonhamos em ser. E do que fomos. E do que eu pensei que fomos, e do que pensavas que nunca tinhamos sido.

Sei que andas feliz e fico feliz que estejas assim, mesmo que nesse teu novo caminho sem asfalto. Saiba que ando feliz também.Por mim, por ti, pelas coisas bonitas que acontecem o tempo todo pra todo mundo. Ando estudando aos finais de semana e lendo um livro ou outro nessas minhas madrugadas de insônia. Tenho saido também. vezes com alguns caras, outras com alguma dessas amigas que eu tenho milhões de eras de fofocas para por em dia. Mas ando feliz. Não penso mais em ti porque achei outro cara para pensar sobre. Outro cara e outros planos, rotas de fuga na verdade. POrque a gente, vez por outra, tem que fugir de tudo, até de nós mesmos, pra poder fazer as coisas serem bonitas e deram certo pra gente também.

quarta-feira, janeiro 12

Se eu tivesse te contado.

Nunca te contei como a tua risada irônica me irrita, como os teus ciumes, teus sumiços, tuas histórias inventadas me corroem por dentro, nem de como tua perna fina é engraçada, como teu complexo de " sou mais foda que todo mundo" soa pretensioso, ou como teu gosto musical é duvidoso.
Nunca te disse que eu preciso de 8 horas de sono por noite, e não de acordar a cada 2 horas com as tuas mensagens envergonhadas pedindo pra eu atender o telefone. Nunca te deixei saber que eu gosto de pelucia mas sou alérgica a elas, e que eu só gosto tanto assim de azul porque é, de acordo com a lenda, a unica cor que afasta os maus espíritos.
Nunca te deixei saber que quando falas sem parar, eu paro de prestar atenção, e quando vens me contar as tuas ultimas aquisições, eu deixo de acreditar.
Nunca te contei que mentir é feio, e que nas tuas mentiras eu monto teias e te pego sempre, mesmo sem que notes.
Nunca te disse que o teu cabelo bagunçado nem sempre é conveniente, que tuas calças baixas são desrespeitosas, Que o teu jeito calmo em meio ao meu desespero só me irrita mais.
Nunca te deixei saber que o fato de você não se acomodar com a situação mesmo quando se acomodar é o mais sensato a se fazer não prova que você é um revolucionário ou qualquer coisa assim.
Nunca comentei que eu sei que nunca trocas os tênis escuros porque os claros estão sempre sujos das tuas andanças secretas e descontroladas pela cidade quando algo te incomoda, nem que as tuas mãos grossas e calejadas encaixam perfeitamente nas minhas finas e macias.
Nunca te sussurrei no pé do ouvido como me derreto quando vens com a tua cara de sono ou como acho bonito quando vens com as tuas ideologias sem fundamento e pouco convincentes pra cima de mim, só pra provar que teus infinitos anos de vida não foram em vão.
Nunca te contei que o sorriso monta no canto do meu lábio quando o porteiro avisa a tua subida ou quando encontro num caderno meu tua letra rabiscada em uma frase qualquer.
Nunca te deixei perceber o meu desespero rente o teu ciúme tampouco minha ansiedade quando demoras pra ligar. Nunca te falei da sensação quando me puxas forte pela cintura quando não temos mais nada a discutir, só pra provar que apesar de tudo, você ainda pode.
Nunca te falei da satisfação ao ver a blusa que eu te dei numa desas comemorações qualquer na cesta de roupa suja, nem de ver que o vidrinho de perfume esquecido na tua mochila numa dessas idas a tarde ao clube agora mora na tua mesa de cabeceira.
Nunca te contei muita coisa, guri, mas as vezes acho que não preciso.