Eu precisava de uma cama. Segui o caminho de olhos fechados até o quarto quadrado, joguei a bolsa na cadeira do computador, me joguei de bruços na cama e me enrolei no edredon vermelho, mesmo que estivesse um calor de 30 graus lá fora.
Ele ligou o ar condicionado, fechou a porta do quarto e se sentou do meu lado. Enterrei minha cara no travesseiro. Naquela altura do campeonato já não pensava mais no rímel que borraria, não pensava mais no cabelo bagunçado, nem na tela do celular que acabou de cair no chão. Não pensava mais no meu short jeans rasgado, se estava curto demais nem se era falta de educação eu me deitar naquela cama sem ser convidada. Não parei para pensar em como as coisas tinham se desenvolvido na ultima semana, nem no porque das briguinhas, das criticas, dos ciumes. Não avaliei nenhum motivo real para eu guardar tudo pra mim, nessa minha mania de sentir tudo demais, mas compartilhar de menos. Logo eu que sempre pedi para que ele me deixasse saber de todas as desconfianças, de todas as caraminholas que passassem pela cabeça dele, guardei as minhas e não mostrei pra ninguém.
Eu só conseguia pensar nos olhos escuros dele me fitando, implorando pra eu virar a cabeça e deixar de birra. Dizendo naquele silêncio que precisava ter certeza que estava tudo bem.
Eu não virei. Fiquei ali, imóvel, relutante. Ele fazia carinho na minha nuca, passando as unhas curtas perto da minha orelha, enquanto eu puxava o ar cada vez com mais força. Ele começou a cantar alguma musica triste, sobre como ele poderia tentar me concertar e como as luzes me guiariam para casa. Nunca tinha o ouvido cantar musica nenhuma.
Depois de meia hora eu virei. Sentei na cama e perguntei o que tinha acontecido com a gente com uma voz mais falha do que a que eu tinha imaginado.
Ele se virou, colocou uma mecha de cabelo minha atrás da orelha. Brincou com o meu brinco comprido e dourado e sussurrou baixinho, como que para não ouvir a própria voz e disse num tom de partir o coração " Não sei, morena".