Um covarde falando com muita intimidade sobre coragem.
Falar sobre o que podia ter sido e não foi, mesmo sabendo que se tivesse sido ou cogitado a possibilidade, não traria conforto.
Escrever tudo o que aconteceu, tudo o que se sente, toda a tristeza e mágoa é pra diário, é pra martelar na cabeça como aquela música chata. O que se vive não se publica. Não se escreve pro outro saber o que se passou ou o que incomoda.
Se escreve para o teatro, pelo mundo de faz de conta que isso envolve, sobre o que se conhece na teoria, e não na prática. Se escreve todos os "se" que brotarem, desde que eles não envolvam desejos pessoais. Afinal, pra que sentir se é tão mais bonito escrever?
Não escrevo tudo o que sinto, tampouco sinto absolutamente tudo o que escrevo. Porque sentir as coisas é importante, mas a inveja mora logo ao lado e mesmo que seja importante fazer propaganda do que se sente, é arriscado demais.
Não pense que é falta de alguma coisa. É justo o inverso. É que as coisas acontecem. As revoluções pequeninhas acontecem aqui dentro e dá um medo enorme de contar pra todo mundo e ver essas linhas de felicidade e boas vibrações se quebrarem.
Sem contar que a infelicidade, mesmo sendo questão de prefixo, te dá um leque de possibilidades muito maior do que a felicidade. É muito mais literário transcrever uma tristeza, uma saudade inexistente do que uma felicidade que é contínua dentro da gente. Felicidade todo mundo sabe como é: é inexplicável. E tudo que é inexplicável, quando a gente tenta explicar, fica piegas demais. É o equilíbrio, e pra falar do equilíbrio se atravessa uma linha muito tênue. Cair, tangenciar é mais fácil. A tristeza não, dá pra comparar, dá pra transformar em palavras aquela dor no fundinho do peito. E mesmo assim, quando não dá, ainda se resta valer da imaginação de cada um. A margem do desequilíbrio é uma calçada larga enquanto a do equilíbrio é uma linha de nada . Quando se escreve algo bonito, não agrada sempre, felicidade é facultativo, é individual. Mas é só escrever alguma coisa um pouco triste que atinge a todo mundo.
Em suma meu caro, essas coisas de sentimento são coisas bem sérias. e escrever sobre elas, mesmo que não se saiba as suas definições com exatidão, são bem mais sadias do que escrever sobre a confusão inexplicável que se passa aqui dentro.