domingo, outubro 10

Metalinguistico

Pra mim, atrás de todo grande texto existe uma pessoa bem pequena. Porque o que se escreve é grande, é pra enaltecer. Porém, é o que não se conhece direito, o que faz o escritor não ser aquele herói todo. Ele só tem um dom de reorganizar de uma forma conveniente e bonita aquilo que não sente nem conhece .
Um covarde falando com muita intimidade sobre coragem.
Falar sobre o que podia ter sido e não foi, mesmo sabendo que se tivesse sido ou cogitado a possibilidade, não traria conforto.
Escrever tudo o que aconteceu, tudo o que se sente, toda a tristeza e mágoa é pra diário, é pra martelar na cabeça como aquela música chata. O que se vive não se publica. Não se escreve pro outro saber o que se passou ou o que incomoda.
Se escreve para o teatro, pelo mundo de faz de conta que isso envolve, sobre o que se conhece na teoria, e não na prática. Se escreve todos os "se" que brotarem, desde que eles não envolvam desejos pessoais. Afinal, pra que sentir se é tão mais bonito escrever?

Não escrevo tudo o que sinto, tampouco sinto absolutamente tudo o que escrevo. Porque sentir as coisas é importante, mas a inveja mora logo ao lado e mesmo que seja importante fazer propaganda do que se sente, é arriscado demais.
Não pense que é falta de alguma coisa. É justo o inverso. É que as coisas acontecem. As revoluções pequeninhas acontecem aqui dentro e dá um medo enorme de contar pra todo mundo e ver essas linhas de felicidade e boas vibrações se quebrarem.
Sem contar que a infelicidade, mesmo sendo questão de prefixo, te dá um leque de possibilidades muito maior do que a felicidade. É muito mais literário transcrever uma tristeza, uma saudade inexistente do que uma felicidade que é contínua dentro da gente. Felicidade todo mundo sabe como é: é inexplicável. E tudo que é inexplicável, quando a gente tenta explicar, fica piegas demais. É o equilíbrio, e pra falar do equilíbrio se atravessa uma linha muito tênue. Cair, tangenciar é mais fácil. A tristeza não, dá pra comparar, dá pra transformar em palavras aquela dor no fundinho do peito. E mesmo assim, quando não dá, ainda se resta valer da imaginação de cada um. A margem do desequilíbrio é uma calçada larga enquanto a do equilíbrio é uma linha de nada . Quando se escreve algo bonito, não agrada sempre, felicidade é facultativo, é individual. Mas é só escrever alguma coisa um pouco triste que atinge a todo mundo.
Em suma meu caro, essas coisas de sentimento são coisas bem sérias. e escrever sobre elas, mesmo que não se saiba as suas definições com exatidão, são bem mais sadias do que escrever sobre a confusão inexplicável que se passa aqui dentro.

quarta-feira, outubro 6

porque eu não fiquei.

Eu poderia ter ficado. Poderia ter apostado as minhas poucas fichas nessa história prematura e com prazo de validade pré-definido e sem prorrogação.
Eu podia ter feito muita coisa por ti. Por mim. Por nós e por essa loucura toda.
Podia ter te ligado nas minhas noites solitárias de insônia e te perguntado qualquer conceito sem definição do meu caderno. Eu podia ter arquitetado planos e rotas de fuga pra te ver, e seria uma fugitiva feliz. Podia roubar uma blusa querida tua e vesti-la quando sentisse saudades, só porque ela teria a tua forma e teu cheiro impressos. Mas eu sei que essas saudades não chegariam.
Há amor, meu amigo, mas isso não é grande nem resistente o suficiente para nos manter erguidos. Eu tentei fazer com que fosse, mas não foi.
Mas eu estarei aqui, imutável, aos trancos e barrancos, apesar dos pesares. Aqui, imutável ao teu lado, mas longe o bastante para não te privar de nada. Até porque não há o que privar.
Sinto, mas minhas migalhas que restam são poucas, muito poucas para serem somadas as tuas virtudes. E eu, fraca demais perante toda a tua força e vontade.
Desculpe, meu amigo, por ter saido do jogo quando vinhas para apostar tudo e ganhar, mesmo eu sabendo que aqui, tua vitória seria a minha vitória também.
Perdoe-me ter posto tanta expectativa, tanta esperança em algo que não tinha condições de crescer.
Mas saiba que, mesmo que tortamente, eu vim. Eu fiquei até o ponto que eu pude, mas o contrato prematuro anunciava que era tarde e passava das 6. A sanidade partia as sete e sem hora pra voltar. E eu não queria que ninguém me visse insana. Nem tu.
Eu parto, meu amigo, com o coração, a alma e a coragem na mão. Deixando manchado de quentes lágrimas o teu ombro só pra te recordar desse tempo. Para selar em um lugar bonito da memória e do coração esse ano que passou.
Eu parto te deixando aqui, meu amigo. Com o teu carinho e honestidade , com o peito aberto não por maldade, mas por necessidade.
Necessidade de saber que vou te poupar das decepções. Que a minha inconstância não vai mais te ferir.
Mas mesmo assim, " quem não é visto, não é lembrado" e eu quero te lembrar para que me lembres naqueles dias que tudo dá errado.
E que, meu amigo, sempre vai ter uma cuia, erva mate e um fim de tarde pra gente se encontrar.

domingo, outubro 3

sobre eternidade.

- Sabe o que eu nunca entendi nessas histórias que vocês contam pras menininhas?
Ele disse em um tom pouco interessado.
Ela levantou os olhos em direção a ele e quase borrando a unha pintada de roxo opaco deu um sorriso de canto.
- Não, o que?
- Essa história de ' e foram felizes para sempre'. Esse para sempre não existe, e vocês colocam na cabeça da menina aos 6 anos que ele existe.
- Sabe, isso é uma questão de acreditar. Pra mim ele existe.
- Ora, faça-me o favor. Se tudo é para sempre, quer dizer que você é imortal.
Ele disse revirando os olhos.
Ela deu uma gargalhada
- E sou. Até que me provem o contrário.
- Tudo bem senhora imortal.
ele disse rindo. Os olhos castanhos iluminados pela luz monocromática da sala de estar a fitavam com pouco interesse, mas encorajando-a de continuar.
- Sabe, sou daquele tipo de gente que acha que nada na vida é momentâneo. Pra mim tudo é arquitetado minusciosamente e não é feito para terminar logo. E que sim, tudo é eterno. Mutável, porém eterno.
Ela voltou seus olhos e atenção para a cuticula que teimava em arruinar o esmalte perfeito.
Ele pendeu a cabeça pro lado direito. Recolheu um pedaço de algodão que dançava sob o chão e começou a brincar com ele.
Um sorriso foi formado enquanto ele olhava para ela.
- Continua.
o vidrinho do esmalte ficou preso entre os joelhos dobrados dela enquanto o palitinho de madeira era usado para facilitar a gesticulação.
- Te lembra quando algum cara disse que a energia não pode ser criada, só transformada? O mesmo princípio se aplica. Você não deixa de gostar de uma pessoa e passa a ser neutro, tipo a Suiça. Você deixa de gostar de alguém, parte disso é dissipada e outra parte vira potência útil para outra coisa nascer dali, seja ódio, indiferença, amizade ou qualquer outra coisa. E isso faz com que nada se acabe, só se transforme.
Ele parecia ter gostado do exemplo. Ficou fitando-a por uns 15 segundos.
Enquanto isso ela passava óleo secante nas unhas e listava o cabelo a ser feito e a roupa a ser separada e passada.
- Tudo é eterno, nada tem fim e você é imortal. Faz sentido agora
ele disse em um tom entediado, quebrando o silencio que seria absoluto se não fosse pelo uivo do vento na janela.
- O que faz sentido?
Ele não respondeu.
Ela entendeu o que ele queria. E de repente nada tinha mais a ver com eternidade ou contos para crianças de 7 anos. Aquela conversa iria demorar. Ela fechou o esmalte, o guardou na bolsa preta pequena com o palitinho de madeira e se sentou novamente ao lado dele.
- Tudo bem, diga-me, o que você quer conversar, de verdade.
- O que? - ele fingiu surpresa.
- Vamos, te conheço o bastante pra saber que só querias preparar o terreno. Algo te incomoda. Teu olhar sereno me diz isso.
-Olha, não quero que você pense que eu armei tudo isso, mas já que você tocou no assunto...