terça-feira, abril 23

2010

Faz 4 meses e dois dias. Eu estava me arrumando em casa, ouvindo uma musica qualquer, entrando no clima,
entrando no desespero,entrando numa sensação estranha que eu sempre tenho antes de sair de casa numa sexta a noite:
uma sensação de que algo vai acontecer, bom ou ruim, mas que nem sempre acontece.
Eu sai de casa quando o sino da igreja vizinha marcou 10 horas. Calça jeans, blusa branca, salto nº7
sombra rosa pink, cabelo enrolado e halls preto na boca.
Cheguei num bar com as amigas de batalha. Estava conformada com a noite single ladies, mas depois da terceira dose escondida de qualquer coisa vi minha noite tomando um outro rumo.
O relógio de ouro gritava uma hora da matina no pulso direito. A boca ria de alguma piada sem graça do taxista.
Uma e trinta e a porta da boate estva lotada. Centenas de bumbums rebolativos com saias com vocação para cinto iam de um lado para o outro no mar de gente que ocupava a calçada. Nao iamos conseguir entrar nunca. Não com os 30 reais que eu tinha no bolso. Meu rosto encostado no vidro que separava quem estava in e em estava out. Descansei o olhar num cara qualquer. Ele in, eu out, um baixinho de blusa preta e um copo de whisky na mão. Ele ficava na ponta dos pés tamanho 42 tentando achar alguém que provavelmente ele nao acharia. Impossivel achar. Fiquei analizando o rosto do desconhecido. Sobrancelhas mal delineadas, fisionomia abatida, como desses caras que passam as noites acordado fazendo sabe Deus o que, e que tomam nescau pela manhã. Não sei porque, ele me lembrava alguém que tomava nescau gelado toda manhã antes de ir pro trabalho, ou pra faculdade, ou pra missa de manhã cedo.
 Os braços brancos dele brincavam na cintura de uma garota ou outra que chamava a sua atenção. Dois beijinhos no rosto e a mandava embora. O dedo indicador girava o gelo dentro do copo. Tentei pedir para ele parar com isso, Suas mãos estavam sujas e ele poderia pegar uma doença colocando seus dedos dentro de um copo. Ele nao me escutou. Primeiro porque tinha um vidro entre nós, segundo porque eu nao falei nada. Estava cansada demais e ele nao iria me ouvir. Ele começou a me encarar também. Olhava o meu rosto. Acho que pensava que eu era nova demais para estar fora da cama.
Percebi que ele percebeu que eu estava encarando. Eu nao tinha motivos para olhar, mas também não tinha nenhum motivo para desviar. Optei por continuar o encarando, até que uma morena de 1,60 chegou do lado dele, o puxou pelo braço forte e tatuado, e o levou para dentro do breu da boate.Ele saiu mas continuei com o olhar no mesmo ponto, onde segundos atrás estavam os olhos dele, até que uma mão cheia de pulseiras, anéis e um esmalte vermelho sangue me puxou também pelo braço para o lado in. A irmã da cunhada do primo da minha amiga conseguiu umas cortesias. Bacana.
O chão era inconsistente. O salto não me incomodava. A batida da caixa de som me fazia vibrar por inteiro.
Senti meus batimentos cardiacos acompanharem o ritmo da batida eletrônica. Fiquei com medo de ter uma parada  cardiaca.Não era possivel ver nada além de um palmo de distancia de mim. A fumaça densa misturada com a luz policromática era divina. Começei a dançar. Fechei os olhos e por um minuto podia jurar que eu estava só no meio da quela multidão. Eu livre, eu sem cadernos, sem " os outros estão olhando", eu sem me preocupar com a vodka de alguém que acabou de cair no meu salto novo. EU dançando com os braços para cima e o corpo leve. Eu. Eu. Eu.
A boca seca me fez abrir os olhos para ir atrás de algo para beber. Água, precisava de água quando reparei na fina camada de suor que cobria minha pele. Quando olhei para frente, vi o mesmo desconhecido da entrada me encarando.
O mesmo copo de whisky, o mesmo olhar de cansado, que agora não desgrudava de mim. Achei normal olhar para ele também. Achei normal puxar na memória de onde eu o conhecia. Lembrei que tinham me falado dele. Uma amiga me falou dele. Que ele era o novo alvo... dela. Me senti traindo minha amiga. Pensei em parar de olha-lo virei de costas e voltei a dançar. Ele se pos na minha frente de novo assim que eu abri os olhos.POr vezes eu voltava a dançar e voltava a fechar os olhos ( é muito bom dançar de olhos fechados) e queria encontra-lo olhando para mim quando os abrisse, mas nem sempre ele estava 100%. As vezes ele estava na minha frente, conversando com o amigo e com um sorriso sacana no rosto, um olho em mim e outro no amigo. OUtras vezes ele sumia- e eu me desesperava. Parecia ser normal ele ter a obrigação de me olhar dançar a noite toda. Até que ele voltou a agir como parecia ser o normal a se fazer, porque depois de umas meia hora acabou sendo normal eu dançando freneticamente e ele ali, me encarando.
E eu ali,encarando ele. Era normal. Era o que devia ser feito. Ignorei a voz da minha amiga gritando que ela o queria na minha mente traidora. Ignorei o calo no meu pé. Ignorei o cabelo suado. Me ignorei. Dei um sorriso de boca fechada.
 Acho que ele viu, porque sorriu também. Voltei a dançar. A noite era minha.
3 da manhã o celular rosa começava a vibrar no bolso da minha calça. É hora de ir.
Pensei em ir me despedir, parecia ser o normal a se fazer, sabe como é, educação. como se nos conhecessemos a anos,como se em um passado não muito distante ele fosse um amigo querido que agora se distanciou, ou fosse um primo de 15º grau... Mas nao fui. Dei uma ultima olhada nos olhos escuros dele. virei o rosto e fui para casa.
No caminho permaneci em silêncio. Pensei se ele ficou me procurando depois que fui embora. Imaginei ele correndo a boate inteira me procurando, dispensando umas meninas bem bonitas só para me procurar,e ir embora de cabeça baixa depois que percebeu a vã procura, mesmo que estivesse no melhor da festa. Pensei muito nos olhos dele. No sorriso sacana. Nas olheiras, no tenis preto de cano meio alto. Na tatuagem. Pensei em mim.
Abri devagar a porta de casa. Nao queria acordar ninguém, não queria me acordar. Tirei o sapato e me deitei de jeans e camisa branca de bruços.
Acordei no dia seguinte com fome. muita fome. Jantei antes de sair de casa na noite anterior? Minha maquiagem antes perfeita agora formava um borrado nos meus olhos. Minha amiga riu quando me viu. O celular rosa apontava 10 chamadas perdidas e algumas novas mensagens. Não respondi nenhuma e não retornei a ninguém. Não me interessava.
No espelho do meu banheiro havia um recado dos meus pais escrito de batom. Mamae sempre deixa recados no espelho do banheiro escritos a batom." Nao quisemos lhe acordar. saimos para almoçar, peça comida."
E eu obedeci. Lavei o rosto, coloquei um blusão velho qualquer, pedi comida chinesa e fui para o computador. O normal a se fazer num sabado solitário.
Quase cai para trás quando entrei no meu site de relacionamentos. O desconhecido de ontem tinha me adicionado. Na verdade, nao fiquei tão surpresa assim. Parecia algo normal de se acontecer.
Uma tarde de sábado trocando mensagens e o tal desconhecido deixou de ser tão desconhecido assim. Uma semana de ligações e ele passou a ser um belo de um conhecido. E o final da história é fácil de deduzir.

outra sobre caras para esquecer

Eu não sei o que eu tava fazendo. Algumas amigas diziam que eu só comecei a sair com mais caras do que deveria, exatamente como no passado. Não fazia muita coisa com nenhum deles, e na maioria das vezes não passava de um almoço com terceiras e quartas intenções que nunca deixaram de ficar só no intencional mesmo. E por mais que isso não me levassem a lugar nenhum, eu me convencia da utilidade deles em ocupar  o meu tempo. Me forçavam a reviver a mesma historia diversas vezes e a contar outras tantas historias diversas vezes também. Pra diversas novas caras, novas respostas e percepções sobre os meus antigos fatos. E na verdade, não passava disso. Eles eram meus terapeutas porque cada vez que eu contava sobre o meu ultimo relacionamento, sobre meu ultimo final de semana, ou sobre as historias das minhas diversas cicatrizes, eles me faziam ver de um outro angulo todas as minhas teorias de como tudo acontecia. Eles me ajudavam, ocupavam a mente e o coração com algo meio efêmero, mas que preenchia os buracos. Eu não tinha tempo para sentir saudade, eu não tinha tempo para pensar nos "e se" do passado. Eu estava ocupada demais me preocupando com os "e se" do presente para isso.
 Eu fui esquecendo do que passou só porque eu tinha mais coisa para me preocupar e nenhum deles me lembrava em nada você. Era um mais diferente que o outro e pensando bem nenhum deles fazia muito o meu estilo. Eles eram legais, achavam que me tinham na mão, eu achava que alguns deles me tinham na mão também, mas só ficávamos nas superficialidades. Nada de contar sobre o avô doente, sobre a briga com os pais semana passada, sobre as frustração da vida. Nada que ultrapassasse a barreira da poça d'água em que flutuávamos, ambos com medo de pisar em falso e encontrar um abismo profundo em que não desse mais para voltar á superfície. Até porque, até mesmo esses caras, eram escolhidos a dedo do jeito mais torto que eu encontrei: inconscientemente, todos eram tão perturbados emocionalmente e tão frágeis e temerosos de se deparar com mãos dadas no cinema de novo quanto eu, então estávamos seguros todos nós três - eu, eles, e a tua memoria sempre vivinha perto de mim.
Até que um dia, um deles me fez, sem querer, veja bem, sem intuito ou intenção, mergulhar um pouquinho mais fundo na zona de conforto que eu tinha estabelecido para esses últimos um mês e meio. Eu pensei "que mal tinha? Ele vai embora no dia seguinte, e antes dele descobrir as sujeirinhas que a gente coleciona debaixo do tapete, antes mesmo de ultrapassar a porta da minha sala, ele vai embora e vai ser exatamente como os outros". Mas ai eu me enganei. Ele  realmente foi embora no dia seguinte, mas  me deixou lá no fundo daquela piscina, que com tantos outros não passou de uma poça, que tropeçamos e decidimos ficar, ele de um lado e eu de outro, segurando nas bordas com medo de se afogar e tentando achar motivos convincentes para o nosso medo de submergir na água escura da nossa recém descoberta piscina de afinidades.
 E agora eu to aqui, relendo umas mensagens antigas, porque esse cara me lembrou de você. Me lembrou dos nossos finais de semana quietinhas vendo tv e das nossas brigas e do teu egoismo e da tua incapacidade de escrever um texto com mais de 15 palavras. Ele me lembrou você, e ferrou com tudo. Não sei se por ter justamente ter me lembrado você, ou por ter me lembrado como era bom o frio na barriga que a gente tinha quando tudo era flores e mãos na cintura e apresentar aos pais e medo de assustar.
Ferrou contudo porque, mais uma vez, eu to com medo de só estar aumentando a minha -  agora interminável- lista de caras para esquecer.

quarta-feira, abril 10

today.

Ainda é no teu travesseiro que eu descanso a minha cabeça.
Ainda é teu o anel dourado que pesa no meu dedo.
É entrelaçando nas tuas pernas que eu desconheço o medo.
É no teu nome que a minha lingua silencia.
Continua sendo na tua ausencia que eu descobro os meus tormentos.
É,  ainda hoje,  na tua presença que eu me desconheço.