Eu não sei o que eu tava fazendo. Algumas amigas diziam que eu só comecei a sair com mais caras do que deveria, exatamente como no passado. Não fazia muita coisa com nenhum deles, e na maioria das vezes não passava de um almoço com terceiras e quartas intenções que nunca deixaram de ficar só no intencional mesmo. E por mais que isso não me levassem a lugar nenhum, eu me convencia da utilidade deles em ocupar o meu tempo. Me forçavam a reviver a mesma historia diversas vezes e a contar outras tantas historias diversas vezes também. Pra diversas novas caras, novas respostas e percepções sobre os meus antigos fatos. E na verdade, não passava disso. Eles eram meus terapeutas porque cada vez que eu contava sobre o meu ultimo relacionamento, sobre meu ultimo final de semana, ou sobre as historias das minhas diversas cicatrizes, eles me faziam ver de um outro angulo todas as minhas teorias de como tudo acontecia. Eles me ajudavam, ocupavam a mente e o coração com algo meio efêmero, mas que preenchia os buracos. Eu não tinha tempo para sentir saudade, eu não tinha tempo para pensar nos "e se" do passado. Eu estava ocupada demais me preocupando com os "e se" do presente para isso.
Eu fui esquecendo do que passou só porque eu tinha mais coisa para me preocupar e nenhum deles me lembrava em nada você. Era um mais diferente que o outro e pensando bem nenhum deles fazia muito o meu estilo. Eles eram legais, achavam que me tinham na mão, eu achava que alguns deles me tinham na mão também, mas só ficávamos nas superficialidades. Nada de contar sobre o avô doente, sobre a briga com os pais semana passada, sobre as frustração da vida. Nada que ultrapassasse a barreira da poça d'água em que flutuávamos, ambos com medo de pisar em falso e encontrar um abismo profundo em que não desse mais para voltar á superfície. Até porque, até mesmo esses caras, eram escolhidos a dedo do jeito mais torto que eu encontrei: inconscientemente, todos eram tão perturbados emocionalmente e tão frágeis e temerosos de se deparar com mãos dadas no cinema de novo quanto eu, então estávamos seguros todos nós três - eu, eles, e a tua memoria sempre vivinha perto de mim.
Até que um dia, um deles me fez, sem querer, veja bem, sem intuito ou intenção, mergulhar um pouquinho mais fundo na zona de conforto que eu tinha estabelecido para esses últimos um mês e meio. Eu pensei "que mal tinha? Ele vai embora no dia seguinte, e antes dele descobrir as sujeirinhas que a gente coleciona debaixo do tapete, antes mesmo de ultrapassar a porta da minha sala, ele vai embora e vai ser exatamente como os outros". Mas ai eu me enganei. Ele realmente foi embora no dia seguinte, mas me deixou lá no fundo daquela piscina, que com tantos outros não passou de uma poça, que tropeçamos e decidimos ficar, ele de um lado e eu de outro, segurando nas bordas com medo de se afogar e tentando achar motivos convincentes para o nosso medo de submergir na água escura da nossa recém descoberta piscina de afinidades.
E agora eu to aqui, relendo umas mensagens antigas, porque esse cara me lembrou de você. Me lembrou dos nossos finais de semana quietinhas vendo tv e das nossas brigas e do teu egoismo e da tua incapacidade de escrever um texto com mais de 15 palavras. Ele me lembrou você, e ferrou com tudo. Não sei se por ter justamente ter me lembrado você, ou por ter me lembrado como era bom o frio na barriga que a gente tinha quando tudo era flores e mãos na cintura e apresentar aos pais e medo de assustar.
Ferrou contudo porque, mais uma vez, eu to com medo de só estar aumentando a minha - agora interminável- lista de caras para esquecer.
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