segunda-feira, outubro 21

Sobre ele.

Eu não sabia o que fazer com a defunta esperança de achar um par, até que umas festas e uns pesos de academia me puseram na sua frente, de rabo de cavalo e cara de sono num domingo manhoso.
E no começo eu fazia pouco caso desse seu sorriso bonito, meio puxadinho pro lado. Havia tantos sorrisos bonitos por ai, pra que ficar gastando tempo pensando em um só, quando eu podia ter vários e não pensar em nenhum? E ai sua mão foi apresentada pra minhas costas, bem naquele espaço entre a cintura e as escápulas, com as suas unhas mal cortadas roçando a pele fina, e eu continuei achando que minhas curvas eram um estado laico e suas vontades eram militantes xiitas.
Sabe quando tudo desandou? Nem foi quando você mordiscou meu lábio, ou seu pé roçou o meu debaixo da mesa do restaurante, nem quando você quis se fazer grande com histórias de antigos carnavais. Foi quando eu encostei a cabeça no seu peito, e esqueci de lembrar dos outros tantos caras. Seja dos caras que lotavam  a minha caixa de entrada na esperança de uma resposta que variasse de um "não" ou dos caras do passado que insistiam em atormentar o meu presente me fazendo acreditar que cara nenhum seria bom o suficiente.
E ai eu descobri que segurar as suas mãos era muito melhor do que segurar um copo de vodka importada nessas festinhas sem fundamento. E ai você me pegou e mostrou que a gente pode sim ser melhor amigo do nosso amor, e que isso nos liberta de muitas formas. Porque ao amar o nosso melhor amigo não tem essa de assunto proibido, nem citação mal feita: existe a gente sendo infinitamente feliz e ponto.
Mas nem tudo são primaveras e a seca atingiu nossa casa também, e quando eu vi a outra face das suas tantas verdades, eu me assustei. E tive medo, vou te dizer. Deu vontade de ir embora e nunca mais voltar, sim. Deu vontade de bater forte a porta do seu carro e massagear meu orgulho cuspindo promessas fortes de que nosso caminhos não iam mais se cruzar.
Dormi com o travesseiro molhado me convencendo de que tudo dito sobre o nosso amor não era nada mais do que um cara esperto que sabia enrolar uma mulher. Vai ver até era.
 Mas quando acordei vi que isso tudo era besteira, e sempre reina aquela vontadezinha de tentar mais uma vez:Agora eu sei que não tem orgulho que fique de pé com a sua ameaça de ir embora. Pra onde eu ia? O que eu ia fazer de mim se a minha cintura pedisse suas mãos desajeitadas?
Você disse que as portas estavam abertas se eu quisesse ir. As feche, tranque com chave e cadeado e os deixe enferrujando por ai e me prometa que o nosso prematuro amor vai tentar superar isso também.  Amor bom é esse, nego, que ameaça acabar o dia todo e no final das contas vem com o rabinho entre as pernas postergando esse fim, e por isso se molda todo a tudo.
Vai por mim, pondera continuar. Volta e fica. Fica comigo que eu caso de vez com todas as suas verdades, e você joga as minhas pra debaixo do tapete e a gente finge que elas nem existem, e sem direito a divórcio.

Quase

Não dá pra saber o que fazer com o pouco-quase-nada que restou.
Tua vontade de magoar cumpre com o previsto e machuca um pouquinho mais com cada frase desgostosa tua.
Nosso quase amor foi promovido a um mero capricho de dois corpos que precisam estar juntos, mas duas cabeças que não se entendem- e nem se aceitam.

terça-feira, outubro 15

Se for pra ficar

Se vai prometer ficar, fica comigo por inteira. Fica com a beleza do meu rosto limpo pela manhã e com as feridas recém abertas que nunca saram á noite. Não vou te pedir pra ficar, aqui só quero que fique quem assim o quer por vontade de estar junto, e não por imposição. Se decidir ficar, a porta vai estar sempre aberta, com o meu cotidiano " bom dia, dormiu bem?" e o meu não tão raro choro quando algo resolve não dar certo.
Pode levar um tempo, se quiser. Ficar não deve ser uma decisão tomada no impulso, e deve ser mesmo ponderada. Eu fico aqui, eu espero. Só não aceito que experimente outras bocas e nem que tua mão passeie por outras nucas enquanto tomas essa decisão: é algo que deve ser levado a sério e, uma vez que cogitado, deve ter ar de decisão já tomada.
Mas quando for pra ficar, que fiques por inteiro, também. Tanto para entreter os convidados quanto para lavar a louça depois da festa, vais ter que ficar. E com um sorriso na cara mesmo que isso seja a maior chatice - eu sei que é a maior chatice, mas o teu rosto com um sorriso me faz acreditar que essa chatice não é tão chata assim. Se for pra ficar, fique e me ajude a tirar a mesa, arrumar a casa, ao menos.
Não te obrigo a ficar, aqui fica quem quem quer e vai embora a hora que quiser também. Só te lembra de seguir uns protocolos de boa convivência, e me avisa pra que a tua partida não seja prematura. Dê sinais de desgaste e um ou dois motivos pra que eu também queira que partas, assim dói menos e me dá mais ânimo pra que eu bagunce depressa a casa e o coração pra que outro cara não tão bem intencionado se disponha a me ajudar a arruma-las também.
Agora, se tua mão quer ser dona da minha cintura,  seja dono dos meus choros baixinhos também. E não faça pouco caso das minhas tempestades, mesmo que em copos d'água. Leve a sério minha vontade de ficar só e de escrever assim como a minha urgência repentina de te ver. E esteja lá quando eu te chamar, por mais que eu suma vez por outra.
Na tua chegada, na porta tinha um aviso que essa garota era complicada, mas no fundo vais ver que é até bem simples jogar quando o jogo é não seguir jogo algum, e só fazer o que se tem vontade.

sábado, outubro 5

ah o verão.

A semana que se passou foi prefácio de um final de semana que excluía edredom e filmes.
Nada de muito provável: a chegada de uma amiga que a muito não se via garantiu noites em bares com tequilas, caronas inesperadas e idas a lanchonete quando não se tinha fome alguma.
Era sexta feira na casa de praia. Nove da noite e a cama refletia o infinito de combinações com cores demais e tecido de menos: Shorts e camisetas se misturavam com a maquiagem e o celular insistente que a nunciava a prematura chegada do carona na esquina de casa. Uns amigos bem bacanas toparam ceder dois lugares no carro em um tipo de esquenta pra praia com moleques que eu jurava serem novos demais pra estarem fora da cama aquela hora. 
O short curto e a barriga de fora não colaboravam com o vento frio da praia, mas ninguém ligava e ainda fingia que tava tudo legal. Tudo legal, tudo zen, tudo prestes a desabar em euforia e histórias boas pra contar.
Depois de uns desencontros com caras legais e novos demais, e uma chuva insistente e fina que parecia estar destinada a estragar o cabelo e maquiagem milimetricamente calculados para parecer " acordei assim", entramos em uma dessas festas em que todos se acham bons demais, lindos demais, ricos demais gastando todo o dinheiro que o papai ralou a semana toda pra conquistar, em uns baldes de bebidas e roupas caras demais pra serem gastas numa festa na beira da praia, quando na verdade todos eram amigos do dono e ninguém pagou nada pra entrar. mas o que vale é isso, o pessoal é até legal e sabe conversar sobre politica e economia enquanto serve um copo ou dois com suco de maçã e a batida dá um tempo pros timpanos lembrarem que o silencio existe, também. Quem disse que a nova geração não lê jornal?
Pintou uns caras bonitinhos, desses que se fossem mulheres teriam passado o dia no salão pra reafirmar a beleza que Deus gentilmente os deu, mas que por terem nascido com um Y no lugar do segundo X, puderam se dar ao luxo de dormir o dia todo e ainda assim chamarem atenção no recinto lotado de mulheres. Maxilares bem marcados e barbas por fazer, com um bronzeadinho vermelho de por do sol na praia e peitorais que acusavam tardes na academia e noites de negação á pizzas e qualquer tipo de carboidrato. Ah o verão.
Se alguma das histórias do verão rendeu até a cidade, no agosto? dificilmente. Amigos a mais e problemas a menos voltaram comigo pra cidade. Parece que problemas são alérgicos ao sol, e quando voltam pra luz fria da lâmpada, eles nunca voltam os mesmos. Pra que pagar analista quando se tem um bronzeado novo, histórias a mais, e resoluções novas, que variam de um " mande á merda" a uma análise detalhada? Não tem como não amar o verão.

dispensa previsão.

Não sei o que tu esperas de mim, ta ligado? Eu te pedia corda e tu só me dizias "vamos com calma".
 Abristes mão da coisa toda muito cedo, seja por costume de deixar as tudo sempre muito no ar pra dar o ar de " wild and free" ou por descaso. Só sei que nunca acreditei nos teus " eu te quero"  quando o teu querer era sempre mais verbal do que físico. A ausência da tua mão na minha nuca nunca me deixou certeza alguma sobre os teus pensamentos em mim quando acordavas, nem na tua urgência toda em não me dividir com ninguém.
Eu senti falta do toque, cara. Senti falta de uma mão na cintura e outra apoiada na parede. Senti falta de uma ou duas festas juntos. De um daqueles olhares vazios mas que dizem tudo. Senti falta de um sotaque pra me perder enquanto eu me concentrava em ficar séria só pra dar mais veracidade em uma pseudo discussão nossa. E tu não me destes nada disso e ainda tivestes que me dizer que eu cavei minha própria cova quando o assunto era um improvável "nós".
Pessoas sensíveis como eu não esperam caras latentes como tu, cara. Se vai ficar nessa de chove-não-molha, eu vou procurar alguém pra mudar de sólido pra gasoso numa noite enquanto tu ponderas se vale a pena cogitar uma mudança de temperatura.
E tinha tantos caras afim de me dar aquela arrepiada no braço quando se toca devagar na nuca, que me pareceu sem logica nem nexo esperar por alguém que nem sabe o que quer, como caras que acham que tem o mundo na mão assim, que nem tu.
Perdeu cara, babau, dançou. E nem vem com teu cinismo em dizer que quem estragou tudo foi eu, que a tua paz de espirito nunca me convenceu. To indo nessa e nem espero que me peças pra ficar: tuas manias de eternidade não me convencem, e não passam de puro medo de descobrir que o mundo é agora e já.

sexta-feira, agosto 2

sobre quem nao joga dados.

Pedimos a Deus o que queremos ou que ele nos dê paz de espirito para aceitar a Sua vontade. Esperamos e planejamos tanto pelo que queremos porém,  que estranhamente quando a paz na alma vem e o que é só o melhor pra gente acontece,  nao acreditamos. Nem aceitamos. E esperniamos para que a nossa vontade pequena seja ponderada mais uma vez.
- Não sabemos lidar com o que é realmente bom. Ô povinho estranho, gosta de sofrer fingindo que é feliz quando é cercado por uma pequenez hipocrita.Quando nao cabe mais lutar pelo que pensas que é teu de direito,  aceita o que é bom pra ti. Teu Pai sabe o que faz pra manter a tua casa e tua mente em ordem quando teus braços pequenos nao dao conta mais de espada nem lança alguma.

sexta-feira, julho 26

Sobre o poderoso chefão e a princesa peach.

Ele era mais um desses caras que a gente coleciona na memoria depois de alguns anos de festas e visitas inesperadas na casa de amigos dos amigos. Não saberia dizer se nos conhecemos em algum elevador, churrasqueira, ou bar de boate. Sei que nos conhecemos e eventualmente nos encontrávamos nuns lugares bem prováveis de se ir aos sábados a noite. Ele foi o cara de algumas amigas minhas, e mais-que-só-o-cara para algumas outras, e nunca me reservou um olhar que durasse mais do que o necessário - algo entre o " me passa o copo" e o " eu tchau, foi um prazer te conhecer" . Eu nunca me incomodei. Algo nele fazia ele ter o tipo de garota que ele quisesse por perto. Mas não sei o que atraia mulher alguma pra perto dele. Os cabelos meio loiros e o rosto branco e redondo,  junto com o sotaque marcado e a voz de  vai-com-calma-que-o-mundo-não-acaba-hoje não o destoavam de ambiente algum: só mais um garoto que cresceu e achou que longe da cama era o seu lugar.
As ideias dele pareciam ser profundas. Olhar nos olhos sempre quase fechados dele davam a impressão de que mil coisas, com ou sem fundamento, pairavam pela mente insana dele, mas ele raramente transmitia algo. Não me surpreenderia se, no entanto, não fosse nada mais do que a programação do futebol ou a preocupação se íamos manchar o sofá que o preocupasse tanto. Ele era desses caras ambíguos que podem tanto ter uma mente brilhante como se encantar com a sua sombra na parede: por mais que nada de intrigante passasse pela cabeça dele, ele sabia enganar bem. Guardava tanto pra si quanto eu não pudesse mais dizer. Ele não passava, na verdade, de um desses caras que acham que suas ideias os fazem mais fortes que o resto quando elas são bem guardadas.
Acho acho que ele assistiu mais vezes do que deveria "o poderoso chefão" e se convenceu de que nunca se deve destruir a áurea de duvida que paira sobre um homem. A partir do momento em que se transforma em transparente e deixa transparecer todos os segredos e ideias, a gente se torna mais frágil.
Queria eu ter visto mais vezes o poderoso chefão do que o necessário também.

Acontece que ele me instigou quando veio com os olhos quase baixos demais e a barba rala por fazer pra cima de mim.  O complexo de "temos todo o tempo do mundo" dele contrastou com o meu emergencialismo e me fez querer entender cada vez mais o que tinha por trás daqueles cabelos lisos. Aceitei dividir a respiração com ele por mera vontade de entender como as coisas funcionavam pra quem acha que tem a calma como mãe. Sabe, poucas pessoas conseguem levar o take it easy a sério e não chamar a atenção dos imediatistas de plantão, como eu.
Acontece que eu não consegui entender quais eram as motivações dele. Ligava todo dia mas não transpassava a barreira poça-d'água que nos separava. Falava sobre um eventual problema com a mãe, mas nunca o real motivo. e eu me sentia cada vez mais mais uma da lista.
Lá no fundo acho que ele pulou fora do barco que ele nunca entrou, e foi, como tudo nele, procurar algo de mais misterioso, tanto quanto ele, pra se entreter.
Pessoas que guardam tudo pra si têm disso também, eu aprendi: gostam de deixar tudo debaixo do tapete, tudo com segundas, terceiras e quartas interpretações pra não ter que por ponto de exclamação em nada. Pra que explicar tanto algo que pode ser deixado de lado. " Deixa pra lá, se for pra gente se encontrar, a gente se encontra" deve ser uma frase que se encaixa naquele ar sereno dele.

No final das contas, com toda a minha experiencia baseada em anos de Meg Cabbot e Super Mário bros., percebi que um final de semana foi o bastante para eu entender que " o poderoso chefão" não se dará muito bem com a Princesa Peach. As coisas dele funcionam assim:  não funcionam. Elas só fluem,  e ele não esta preocupado em ser um cara reservado, ele apenas é,  e quando pensa que algo fugiu do que ele considera o sensato, ele pula fora sem  mais delongas. Esperto e prático.

Um final de semana, e eu descobri que o cara não passava de um desses caras que usam da lábia que Deus os deu pra arranjar alguma distração.
Céus, como eu queria ser esse tipo de cara.

segunda-feira, maio 6

de frente pro mar.

Esquecer alguém não é tão difícil, mas deixar de gostar traz um vazio absoluto. Porque até que outra coisa tão real e surpreendente aconteça, parece demorado e dá preguiça demais. E quando estiver carente e me fizer deslumbrante e disponível terei que esperar que alguém interessante apareça com o mesmo blábláblá dos primeiros instantes, com a mesma performance das máscaras sociais. Dai eu me lembro dele, que já sabia tanto quando eu nem precisava dizer. Era tão delicioso a gente só se olhar, cúmplices, e seguir por aí, de mãos dadas, tão donos do mundo. Era tão maravilhoso saber que meu projeto de vida incluia ser o projeto de vida dele, tipo esse negocio todo de amor de infancia que sobreviveu à puberdade e resolveu juntar as escovas de dente e envelhecer juntos numa casinha de frente pro mar...

domingo, maio 5

rabisco

Tua blusa voltou pra debaixo do meu travesseiro
teu cheiro empestou meu edredom
tua voz invadiu minha cabeça
Admiti que, se não posso te ter na correria do meu dia-a-dia,
que eu te tenha na calmaria da escuridão.
E nessa de não saber como lidar com a tua ausência
resolvi que meu lugar preferido ainda vai ser no lado teu
e teu "bom dia" vai ser sempre o meu primeiro
e teu sussuro vai sempre arrepiar o braço meu
Dai rabisquei na cadeira
" eu ainda vou ser a primeira coisa que você vai ver quando acordar"
e copiei no caderno
no quadro
na memoria
na vida.

terça-feira, abril 23

2010

Faz 4 meses e dois dias. Eu estava me arrumando em casa, ouvindo uma musica qualquer, entrando no clima,
entrando no desespero,entrando numa sensação estranha que eu sempre tenho antes de sair de casa numa sexta a noite:
uma sensação de que algo vai acontecer, bom ou ruim, mas que nem sempre acontece.
Eu sai de casa quando o sino da igreja vizinha marcou 10 horas. Calça jeans, blusa branca, salto nº7
sombra rosa pink, cabelo enrolado e halls preto na boca.
Cheguei num bar com as amigas de batalha. Estava conformada com a noite single ladies, mas depois da terceira dose escondida de qualquer coisa vi minha noite tomando um outro rumo.
O relógio de ouro gritava uma hora da matina no pulso direito. A boca ria de alguma piada sem graça do taxista.
Uma e trinta e a porta da boate estva lotada. Centenas de bumbums rebolativos com saias com vocação para cinto iam de um lado para o outro no mar de gente que ocupava a calçada. Nao iamos conseguir entrar nunca. Não com os 30 reais que eu tinha no bolso. Meu rosto encostado no vidro que separava quem estava in e em estava out. Descansei o olhar num cara qualquer. Ele in, eu out, um baixinho de blusa preta e um copo de whisky na mão. Ele ficava na ponta dos pés tamanho 42 tentando achar alguém que provavelmente ele nao acharia. Impossivel achar. Fiquei analizando o rosto do desconhecido. Sobrancelhas mal delineadas, fisionomia abatida, como desses caras que passam as noites acordado fazendo sabe Deus o que, e que tomam nescau pela manhã. Não sei porque, ele me lembrava alguém que tomava nescau gelado toda manhã antes de ir pro trabalho, ou pra faculdade, ou pra missa de manhã cedo.
 Os braços brancos dele brincavam na cintura de uma garota ou outra que chamava a sua atenção. Dois beijinhos no rosto e a mandava embora. O dedo indicador girava o gelo dentro do copo. Tentei pedir para ele parar com isso, Suas mãos estavam sujas e ele poderia pegar uma doença colocando seus dedos dentro de um copo. Ele nao me escutou. Primeiro porque tinha um vidro entre nós, segundo porque eu nao falei nada. Estava cansada demais e ele nao iria me ouvir. Ele começou a me encarar também. Olhava o meu rosto. Acho que pensava que eu era nova demais para estar fora da cama.
Percebi que ele percebeu que eu estava encarando. Eu nao tinha motivos para olhar, mas também não tinha nenhum motivo para desviar. Optei por continuar o encarando, até que uma morena de 1,60 chegou do lado dele, o puxou pelo braço forte e tatuado, e o levou para dentro do breu da boate.Ele saiu mas continuei com o olhar no mesmo ponto, onde segundos atrás estavam os olhos dele, até que uma mão cheia de pulseiras, anéis e um esmalte vermelho sangue me puxou também pelo braço para o lado in. A irmã da cunhada do primo da minha amiga conseguiu umas cortesias. Bacana.
O chão era inconsistente. O salto não me incomodava. A batida da caixa de som me fazia vibrar por inteiro.
Senti meus batimentos cardiacos acompanharem o ritmo da batida eletrônica. Fiquei com medo de ter uma parada  cardiaca.Não era possivel ver nada além de um palmo de distancia de mim. A fumaça densa misturada com a luz policromática era divina. Começei a dançar. Fechei os olhos e por um minuto podia jurar que eu estava só no meio da quela multidão. Eu livre, eu sem cadernos, sem " os outros estão olhando", eu sem me preocupar com a vodka de alguém que acabou de cair no meu salto novo. EU dançando com os braços para cima e o corpo leve. Eu. Eu. Eu.
A boca seca me fez abrir os olhos para ir atrás de algo para beber. Água, precisava de água quando reparei na fina camada de suor que cobria minha pele. Quando olhei para frente, vi o mesmo desconhecido da entrada me encarando.
O mesmo copo de whisky, o mesmo olhar de cansado, que agora não desgrudava de mim. Achei normal olhar para ele também. Achei normal puxar na memória de onde eu o conhecia. Lembrei que tinham me falado dele. Uma amiga me falou dele. Que ele era o novo alvo... dela. Me senti traindo minha amiga. Pensei em parar de olha-lo virei de costas e voltei a dançar. Ele se pos na minha frente de novo assim que eu abri os olhos.POr vezes eu voltava a dançar e voltava a fechar os olhos ( é muito bom dançar de olhos fechados) e queria encontra-lo olhando para mim quando os abrisse, mas nem sempre ele estava 100%. As vezes ele estava na minha frente, conversando com o amigo e com um sorriso sacana no rosto, um olho em mim e outro no amigo. OUtras vezes ele sumia- e eu me desesperava. Parecia ser normal ele ter a obrigação de me olhar dançar a noite toda. Até que ele voltou a agir como parecia ser o normal a se fazer, porque depois de umas meia hora acabou sendo normal eu dançando freneticamente e ele ali, me encarando.
E eu ali,encarando ele. Era normal. Era o que devia ser feito. Ignorei a voz da minha amiga gritando que ela o queria na minha mente traidora. Ignorei o calo no meu pé. Ignorei o cabelo suado. Me ignorei. Dei um sorriso de boca fechada.
 Acho que ele viu, porque sorriu também. Voltei a dançar. A noite era minha.
3 da manhã o celular rosa começava a vibrar no bolso da minha calça. É hora de ir.
Pensei em ir me despedir, parecia ser o normal a se fazer, sabe como é, educação. como se nos conhecessemos a anos,como se em um passado não muito distante ele fosse um amigo querido que agora se distanciou, ou fosse um primo de 15º grau... Mas nao fui. Dei uma ultima olhada nos olhos escuros dele. virei o rosto e fui para casa.
No caminho permaneci em silêncio. Pensei se ele ficou me procurando depois que fui embora. Imaginei ele correndo a boate inteira me procurando, dispensando umas meninas bem bonitas só para me procurar,e ir embora de cabeça baixa depois que percebeu a vã procura, mesmo que estivesse no melhor da festa. Pensei muito nos olhos dele. No sorriso sacana. Nas olheiras, no tenis preto de cano meio alto. Na tatuagem. Pensei em mim.
Abri devagar a porta de casa. Nao queria acordar ninguém, não queria me acordar. Tirei o sapato e me deitei de jeans e camisa branca de bruços.
Acordei no dia seguinte com fome. muita fome. Jantei antes de sair de casa na noite anterior? Minha maquiagem antes perfeita agora formava um borrado nos meus olhos. Minha amiga riu quando me viu. O celular rosa apontava 10 chamadas perdidas e algumas novas mensagens. Não respondi nenhuma e não retornei a ninguém. Não me interessava.
No espelho do meu banheiro havia um recado dos meus pais escrito de batom. Mamae sempre deixa recados no espelho do banheiro escritos a batom." Nao quisemos lhe acordar. saimos para almoçar, peça comida."
E eu obedeci. Lavei o rosto, coloquei um blusão velho qualquer, pedi comida chinesa e fui para o computador. O normal a se fazer num sabado solitário.
Quase cai para trás quando entrei no meu site de relacionamentos. O desconhecido de ontem tinha me adicionado. Na verdade, nao fiquei tão surpresa assim. Parecia algo normal de se acontecer.
Uma tarde de sábado trocando mensagens e o tal desconhecido deixou de ser tão desconhecido assim. Uma semana de ligações e ele passou a ser um belo de um conhecido. E o final da história é fácil de deduzir.

outra sobre caras para esquecer

Eu não sei o que eu tava fazendo. Algumas amigas diziam que eu só comecei a sair com mais caras do que deveria, exatamente como no passado. Não fazia muita coisa com nenhum deles, e na maioria das vezes não passava de um almoço com terceiras e quartas intenções que nunca deixaram de ficar só no intencional mesmo. E por mais que isso não me levassem a lugar nenhum, eu me convencia da utilidade deles em ocupar  o meu tempo. Me forçavam a reviver a mesma historia diversas vezes e a contar outras tantas historias diversas vezes também. Pra diversas novas caras, novas respostas e percepções sobre os meus antigos fatos. E na verdade, não passava disso. Eles eram meus terapeutas porque cada vez que eu contava sobre o meu ultimo relacionamento, sobre meu ultimo final de semana, ou sobre as historias das minhas diversas cicatrizes, eles me faziam ver de um outro angulo todas as minhas teorias de como tudo acontecia. Eles me ajudavam, ocupavam a mente e o coração com algo meio efêmero, mas que preenchia os buracos. Eu não tinha tempo para sentir saudade, eu não tinha tempo para pensar nos "e se" do passado. Eu estava ocupada demais me preocupando com os "e se" do presente para isso.
 Eu fui esquecendo do que passou só porque eu tinha mais coisa para me preocupar e nenhum deles me lembrava em nada você. Era um mais diferente que o outro e pensando bem nenhum deles fazia muito o meu estilo. Eles eram legais, achavam que me tinham na mão, eu achava que alguns deles me tinham na mão também, mas só ficávamos nas superficialidades. Nada de contar sobre o avô doente, sobre a briga com os pais semana passada, sobre as frustração da vida. Nada que ultrapassasse a barreira da poça d'água em que flutuávamos, ambos com medo de pisar em falso e encontrar um abismo profundo em que não desse mais para voltar á superfície. Até porque, até mesmo esses caras, eram escolhidos a dedo do jeito mais torto que eu encontrei: inconscientemente, todos eram tão perturbados emocionalmente e tão frágeis e temerosos de se deparar com mãos dadas no cinema de novo quanto eu, então estávamos seguros todos nós três - eu, eles, e a tua memoria sempre vivinha perto de mim.
Até que um dia, um deles me fez, sem querer, veja bem, sem intuito ou intenção, mergulhar um pouquinho mais fundo na zona de conforto que eu tinha estabelecido para esses últimos um mês e meio. Eu pensei "que mal tinha? Ele vai embora no dia seguinte, e antes dele descobrir as sujeirinhas que a gente coleciona debaixo do tapete, antes mesmo de ultrapassar a porta da minha sala, ele vai embora e vai ser exatamente como os outros". Mas ai eu me enganei. Ele  realmente foi embora no dia seguinte, mas  me deixou lá no fundo daquela piscina, que com tantos outros não passou de uma poça, que tropeçamos e decidimos ficar, ele de um lado e eu de outro, segurando nas bordas com medo de se afogar e tentando achar motivos convincentes para o nosso medo de submergir na água escura da nossa recém descoberta piscina de afinidades.
 E agora eu to aqui, relendo umas mensagens antigas, porque esse cara me lembrou de você. Me lembrou dos nossos finais de semana quietinhas vendo tv e das nossas brigas e do teu egoismo e da tua incapacidade de escrever um texto com mais de 15 palavras. Ele me lembrou você, e ferrou com tudo. Não sei se por ter justamente ter me lembrado você, ou por ter me lembrado como era bom o frio na barriga que a gente tinha quando tudo era flores e mãos na cintura e apresentar aos pais e medo de assustar.
Ferrou contudo porque, mais uma vez, eu to com medo de só estar aumentando a minha -  agora interminável- lista de caras para esquecer.

quarta-feira, abril 10

today.

Ainda é no teu travesseiro que eu descanso a minha cabeça.
Ainda é teu o anel dourado que pesa no meu dedo.
É entrelaçando nas tuas pernas que eu desconheço o medo.
É no teu nome que a minha lingua silencia.
Continua sendo na tua ausencia que eu descobro os meus tormentos.
É,  ainda hoje,  na tua presença que eu me desconheço.