Eu não sabia o que fazer com a defunta esperança de achar um par, até que umas festas e uns pesos de academia me puseram na sua frente, de rabo de cavalo e cara de sono num domingo manhoso.
E no começo eu fazia pouco caso desse seu sorriso bonito, meio puxadinho pro lado. Havia tantos sorrisos bonitos por ai, pra que ficar gastando tempo pensando em um só, quando eu podia ter vários e não pensar em nenhum? E ai sua mão foi apresentada pra minhas costas, bem naquele espaço entre a cintura e as escápulas, com as suas unhas mal cortadas roçando a pele fina, e eu continuei achando que minhas curvas eram um estado laico e suas vontades eram militantes xiitas.
Sabe quando tudo desandou? Nem foi quando você mordiscou meu lábio, ou seu pé roçou o meu debaixo da mesa do restaurante, nem quando você quis se fazer grande com histórias de antigos carnavais. Foi quando eu encostei a cabeça no seu peito, e esqueci de lembrar dos outros tantos caras. Seja dos caras que lotavam a minha caixa de entrada na esperança de uma resposta que variasse de um "não" ou dos caras do passado que insistiam em atormentar o meu presente me fazendo acreditar que cara nenhum seria bom o suficiente.
E ai eu descobri que segurar as suas mãos era muito melhor do que segurar um copo de vodka importada nessas festinhas sem fundamento. E ai você me pegou e mostrou que a gente pode sim ser melhor amigo do nosso amor, e que isso nos liberta de muitas formas. Porque ao amar o nosso melhor amigo não tem essa de assunto proibido, nem citação mal feita: existe a gente sendo infinitamente feliz e ponto.
Mas nem tudo são primaveras e a seca atingiu nossa casa também, e quando eu vi a outra face das suas tantas verdades, eu me assustei. E tive medo, vou te dizer. Deu vontade de ir embora e nunca mais voltar, sim. Deu vontade de bater forte a porta do seu carro e massagear meu orgulho cuspindo promessas fortes de que nosso caminhos não iam mais se cruzar.
Dormi com o travesseiro molhado me convencendo de que tudo dito sobre o nosso amor não era nada mais do que um cara esperto que sabia enrolar uma mulher. Vai ver até era.
Mas quando acordei vi que isso tudo era besteira, e sempre reina aquela vontadezinha de tentar mais uma vez:Agora eu sei que não tem orgulho que fique de pé com a sua ameaça de ir embora. Pra onde eu ia? O que eu ia fazer de mim se a minha cintura pedisse suas mãos desajeitadas?
Você disse que as portas estavam abertas se eu quisesse ir. As feche, tranque com chave e cadeado e os deixe enferrujando por ai e me prometa que o nosso prematuro amor vai tentar superar isso também. Amor bom é esse, nego, que ameaça acabar o dia todo e no final das contas vem com o rabinho entre as pernas postergando esse fim, e por isso se molda todo a tudo.
Vai por mim, pondera continuar. Volta e fica. Fica comigo que eu caso de vez com todas as suas verdades, e você joga as minhas pra debaixo do tapete e a gente finge que elas nem existem, e sem direito a divórcio.
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