Ele era mais um desses caras que a gente coleciona na memoria depois de alguns anos de festas e visitas inesperadas na casa de amigos dos amigos. Não saberia dizer se nos conhecemos em algum elevador, churrasqueira, ou bar de boate. Sei que nos conhecemos e eventualmente nos encontrávamos nuns lugares bem prováveis de se ir aos sábados a noite. Ele foi o cara de algumas amigas minhas, e mais-que-só-o-cara para algumas outras, e nunca me reservou um olhar que durasse mais do que o necessário - algo entre o " me passa o copo" e o " eu tchau, foi um prazer te conhecer" . Eu nunca me incomodei. Algo nele fazia ele ter o tipo de garota que ele quisesse por perto. Mas não sei o que atraia mulher alguma pra perto dele. Os cabelos meio loiros e o rosto branco e redondo, junto com o sotaque marcado e a voz de vai-com-calma-que-o-mundo-não-acaba-hoje não o destoavam de ambiente algum: só mais um garoto que cresceu e achou que longe da cama era o seu lugar.
As ideias dele pareciam ser profundas. Olhar nos olhos sempre quase fechados dele davam a impressão de que mil coisas, com ou sem fundamento, pairavam pela mente insana dele, mas ele raramente transmitia algo. Não me surpreenderia se, no entanto, não fosse nada mais do que a programação do futebol ou a preocupação se íamos manchar o sofá que o preocupasse tanto. Ele era desses caras ambíguos que podem tanto ter uma mente brilhante como se encantar com a sua sombra na parede: por mais que nada de intrigante passasse pela cabeça dele, ele sabia enganar bem. Guardava tanto pra si quanto eu não pudesse mais dizer. Ele não passava, na verdade, de um desses caras que acham que suas ideias os fazem mais fortes que o resto quando elas são bem guardadas.
Acho acho que ele assistiu mais vezes do que deveria "o poderoso chefão" e se convenceu de que nunca se deve destruir a áurea de duvida que paira sobre um homem. A partir do momento em que se transforma em transparente e deixa transparecer todos os segredos e ideias, a gente se torna mais frágil.
Queria eu ter visto mais vezes o poderoso chefão do que o necessário também.
Acontece que ele me instigou quando veio com os olhos quase baixos demais e a barba rala por fazer pra cima de mim. O complexo de "temos todo o tempo do mundo" dele contrastou com o meu emergencialismo e me fez querer entender cada vez mais o que tinha por trás daqueles cabelos lisos. Aceitei dividir a respiração com ele por mera vontade de entender como as coisas funcionavam pra quem acha que tem a calma como mãe. Sabe, poucas pessoas conseguem levar o take it easy a sério e não chamar a atenção dos imediatistas de plantão, como eu.
Acontece que eu não consegui entender quais eram as motivações dele. Ligava todo dia mas não transpassava a barreira poça-d'água que nos separava. Falava sobre um eventual problema com a mãe, mas nunca o real motivo. e eu me sentia cada vez mais mais uma da lista.
Lá no fundo acho que ele pulou fora do barco que ele nunca entrou, e foi, como tudo nele, procurar algo de mais misterioso, tanto quanto ele, pra se entreter.
Pessoas que guardam tudo pra si têm disso também, eu aprendi: gostam de deixar tudo debaixo do tapete, tudo com segundas, terceiras e quartas interpretações pra não ter que por ponto de exclamação em nada. Pra que explicar tanto algo que pode ser deixado de lado. " Deixa pra lá, se for pra gente se encontrar, a gente se encontra" deve ser uma frase que se encaixa naquele ar sereno dele.
No final das contas, com toda a minha experiencia baseada em anos de Meg Cabbot e Super Mário bros., percebi que um final de semana foi o bastante para eu entender que " o poderoso chefão" não se dará muito bem com a Princesa Peach. As coisas dele funcionam assim: não funcionam. Elas só fluem, e ele não esta preocupado em ser um cara reservado, ele apenas é, e quando pensa que algo fugiu do que ele considera o sensato, ele pula fora sem mais delongas. Esperto e prático.
Um final de semana, e eu descobri que o cara não passava de um desses caras que usam da lábia que Deus os deu pra arranjar alguma distração.
Céus, como eu queria ser esse tipo de cara.
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