domingo, outubro 3

sobre eternidade.

- Sabe o que eu nunca entendi nessas histórias que vocês contam pras menininhas?
Ele disse em um tom pouco interessado.
Ela levantou os olhos em direção a ele e quase borrando a unha pintada de roxo opaco deu um sorriso de canto.
- Não, o que?
- Essa história de ' e foram felizes para sempre'. Esse para sempre não existe, e vocês colocam na cabeça da menina aos 6 anos que ele existe.
- Sabe, isso é uma questão de acreditar. Pra mim ele existe.
- Ora, faça-me o favor. Se tudo é para sempre, quer dizer que você é imortal.
Ele disse revirando os olhos.
Ela deu uma gargalhada
- E sou. Até que me provem o contrário.
- Tudo bem senhora imortal.
ele disse rindo. Os olhos castanhos iluminados pela luz monocromática da sala de estar a fitavam com pouco interesse, mas encorajando-a de continuar.
- Sabe, sou daquele tipo de gente que acha que nada na vida é momentâneo. Pra mim tudo é arquitetado minusciosamente e não é feito para terminar logo. E que sim, tudo é eterno. Mutável, porém eterno.
Ela voltou seus olhos e atenção para a cuticula que teimava em arruinar o esmalte perfeito.
Ele pendeu a cabeça pro lado direito. Recolheu um pedaço de algodão que dançava sob o chão e começou a brincar com ele.
Um sorriso foi formado enquanto ele olhava para ela.
- Continua.
o vidrinho do esmalte ficou preso entre os joelhos dobrados dela enquanto o palitinho de madeira era usado para facilitar a gesticulação.
- Te lembra quando algum cara disse que a energia não pode ser criada, só transformada? O mesmo princípio se aplica. Você não deixa de gostar de uma pessoa e passa a ser neutro, tipo a Suiça. Você deixa de gostar de alguém, parte disso é dissipada e outra parte vira potência útil para outra coisa nascer dali, seja ódio, indiferença, amizade ou qualquer outra coisa. E isso faz com que nada se acabe, só se transforme.
Ele parecia ter gostado do exemplo. Ficou fitando-a por uns 15 segundos.
Enquanto isso ela passava óleo secante nas unhas e listava o cabelo a ser feito e a roupa a ser separada e passada.
- Tudo é eterno, nada tem fim e você é imortal. Faz sentido agora
ele disse em um tom entediado, quebrando o silencio que seria absoluto se não fosse pelo uivo do vento na janela.
- O que faz sentido?
Ele não respondeu.
Ela entendeu o que ele queria. E de repente nada tinha mais a ver com eternidade ou contos para crianças de 7 anos. Aquela conversa iria demorar. Ela fechou o esmalte, o guardou na bolsa preta pequena com o palitinho de madeira e se sentou novamente ao lado dele.
- Tudo bem, diga-me, o que você quer conversar, de verdade.
- O que? - ele fingiu surpresa.
- Vamos, te conheço o bastante pra saber que só querias preparar o terreno. Algo te incomoda. Teu olhar sereno me diz isso.
-Olha, não quero que você pense que eu armei tudo isso, mas já que você tocou no assunto...

Nenhum comentário:

Postar um comentário