segunda-feira, setembro 6

falsidade ideológica.

ela suava nas mãos, a blusa cinza colada no corpo a lembrava que o sol de meio dia castigava. Ela andava tão rápido, revendo mentalmente tudo o que iria dizer. A ruga que marcava a testa dela camuflava a leveza que ela sentia naquele momento.
Ela abriu as portas de metal do predio dele, caminhou lentamente, com um ligeiro sorriso no canto inferior dos lábios e entrou no elevador social. O mesmo elevador que ela tentava desmembrar de tanta coisa boa. Repensou no diálogo já formulado na cabeça antes de apertar na campainha.
- O que voce faz aqui?
- Diz que você não sente saudades minhas, não me ama mais, que eu sumo de uma vez da tua vida.
- Mas o...que? você tá ficando louca só pode..
- Louca ou não, só me diz isso. não te amo, não sinto saudades.
- Pra que? escuta aqui, eu sei que foi tudo meio confuso..
- Confuso ou não, não vem ao caso. Voce quer que eu vá embora, não quer? só me diz essas duas coisas.
- Olha, viestes aqui só pra me pedir isso?
ele revirou os olhos e tentou fechar a porta, mas ela colocou o seu pé, calçado com uma havaiana rosa, no vão da porta com a parede
- Só diz isso. Que não me ama e que não sente saudades, que eu saio da tua casa, da tua vida, como se eu nunca tivesse existido.
- Você é perturbada.
- Sim, eu sou
- Você é doente
-Sim, talvez eu também o seja.
Ela também era forte, e ele sabia disso
- Eu não preciso disso...
-Eu sei, mas eu preciso. só diga
-Escuta aqui...
_ só diz.
- Olha só, quero entender o teu propósito com isso.
- Te esquecer. ouvir da tua boca que eu não sou mais nada pra ti.
- Você é louca. Já te falaram isso? Voce quer o que, que eu diga que te ame e ainda sinto saudades e volte correndo pra você? as coisas não funcionam assim, Anne. Você não tem tudo o que quer nas mãos.
- Você percebeu o que eu pedi? só pedi pra você falar que não me ama e não sente saudades. não que você volte pra mim.
- Pois bem, não te amo, não sinto saudades.
- Obrigada
Ela deu aquele sorriso que era capaz de desarmar um exército. Nada podia lutar contra ele. Virou de costas, puxou a porta do elevador e saiu para as ruas da cidade, exalando satisfação.
Ela atravessou a rua, e sentiu o celular vibrar no bolso traseiro do shorts jeans rasgados.
" Eu te amo, sinto a tua falta, me perdoa."
E toda aquela armadura que ambos vestiam caiu. Talvez, era isso que ela quisesse de verdade. Que mesmo que ele negasse diante dela, soubesse que lá dentro de alguma gaveta bagunçada dele, ele também não a esqueceu.

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