sábado, setembro 11

O que resta

- Tu te lembras da gente tomando sorvete no inverno?
- lembro, Anne
- E da caixinha de musica? E daquele almoço de sábado que eu deixei cair o prato no restaurante e tu brigaste comigo? Te lembras?
- Me lembro, me lembro. Lembro de tudo o que a tua memória puder recordar. E mais um pouco, até.
Ela ficou parada, digerindo a idéia dele ainda se lembrar de tudo o que ela pensou que ele tivesse esquecido. Deixou uma fenda se formar entre os lábios rosados.
Ficaram ali, olhando o nada por uma coleção de minutos. Com um estalo, ela começou a falar:
- É bom ouvir isso de ti. Quer dizer que eu entrei naquele lado da memória que só as coisas realmente boas entram
-você é uma memória boa pra mim. - ele falou baixinho
- Sabe o que dizem? Que quando permitimos que alguém entre lá, no cantinho das boas memórias, estamos fadados a lembrar dela pra sempre
-E que belo fado esse meu,de te recordar pra sempre.

Anne deu um beijo na ponta do nariz dele, o olhou com aqueles olhos castanhos pequenos, deu um sorriso que era capaz de mostrar o estado da sua alma e saiu correndo para o parque. O seu vestido branco e curto esfumaçando ao seu redor.
Ele ficou lá, sentado na grama que não era tão verde. Não conseguiu conter o sorriso que se formou involuntariamente no canto dos lábios, ficou pensando em Anne.
Talvez ela não fosse ainda tão bonita, talvez não esteja mais saindo aos sábados nem indo a manicure toda semana.A pele estava meio descuidada, e o cabelo curto não caiu tão bem nela
Mas, apesar de tudo, Anne era feliz.

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