Ela vivia nessa vidinha mais ou menos. Ocupando todo o tempo livre com qualquer coisa. Evitava ficar só, evitava avaliar o rumo que as coisas tomam. Evitava pensar. Pensar, como já dizia algum poeta que marcavam as apostilas dela, doía. Dava uma melancolia que ela não queria para si.
E eu fui espectadora dessa novela por muito tempo. Espectadora, ombro amigo, companheira de sabados solitários e de outros não tão solitários assim. Fui aquela psicóloga que toda garota precisa ter.
Estive ali, em suma, só para entender como as coisas funcionavam pra ela.
Ela não saia com os caras que pintavam. Não retornava as ligações do bonitinho do 7º andar e passava longe dos caras com cabelos enrolados e cheirando a shampoo que juravam afeto maior que o mundo. Eu achava um desperdício enorme. Ela achava traição.
Nós, apesar de inseparáveis, nunca concordamos nesse ponto. Pra mim, as coisas demoram, mas passam e a vida é bonita demais pra ser esquecida numa marchinha fúnebre de carnaval. Pra ela, as coisas são imutáveis e tudo deve ser sentido com a intensidade que mereçe. Tando na dor, quanto no amor.
Acabou que se passaram dias, meses, semanas.Ela ainda negava o bonitinho do 701 e eu não entendia. doloroso. Ela sabia que tinha, dentro dela, uma cicatriz que ainda doía e que quando o esquecesse, ia ser de vez. Quer dizer, foi assim com os outros.
Muito tempo gostando. Muito tempo sofrendo. Muitas recaidas. Muitas horas avaliando. Muitas vezes se orgulhando por conhece-lo de cor mesmo que tenha esquecido o andar que ele mora. Muitos encontros de despedida que nunca acabavam. Muitas tequilas só pra ter pretexto pra roubar um beijo.
Ela tinha muito disso e demorava a passar. Mas quando passava, meu bem, voltar era um caminho, não impossível, mas muito difícil.
Aconteceu que eu enchi a cabeça dela. Passei finais de semana a fio injetando a idéia que cara qualquer era melhor que as noites de fossa dela. Ela não entendia. Dizia que tava passando, que ia passar, e me tapeava todas as vezes.
E no final, quando ela percebeu que se anulou numa coisa que não fazia o menor sentido, olhou pra mim com os olhos cor de ameixa com lápis em torno dos cílios e rímel meio borrado e disse que eu tinha razão.
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