domingo, outubro 11

Vamos, bartholomeu.

Agora percebo que me conhecias como ninguém. Podias prever meus atos, minhas caras, minhas neuras e, mesmo assim, ainda insistias em te fingir de surpreso quando eu  esperneava meu pranto por ai, como se já não soubesses na ponta da língua o sabor da loucura e do drama da tua mulher.
 Mesmo se fazendo de desentendido pelas minhas brigas, encenavas surpresa enquanto eu reclamava mais do que suportavas, e mesmo assim continuavas sendo mais do que o Amor previa pra mim.
E continuastes sendo, nesses últimos meses em que meu pé tinha descoberto que em cima dos teus era um bom lugar para descansar, um homem capaz de encostar a testa na minha e, entre dois sorrisos frouxos, mesmo com as minhas espinhas, cabelo ruim, e mau humor, ficar feliz só de se encontrar.
A gente tinha o mesmo gosto, tanto pras piadas ruins quanto no céu da boca.
Quando eu me cheirava sentia o teu cheiro e meus dedinhos afobados sabiam digitar teu numero mais rápido do que o papa léguas corria do coyote, só pra sanar aquela vontade incessante de ouvir tua voz serena e acalmar minhas agonias.
Mesmo sozinha eu já ouvia - e ainda ouço - tua risada junto com a minha todas as vezes que me deparo com essas coisas sem-graça-e-que-só-eu-rio. A gente tinha o mesmo toque. Vibrava na mesma frequência e nossas rádios sempre estavam na mesma estação. A gente era sincronizado na mesma playlist.
Nosso dia-a-dia tinha tanto um do outro que já era impossível saber o que era de quem, seja no nome do esmalte ou dos futuros filhos. A gente tinha os mesmos gestos. A mesma mania estranha de falar com voz de criança e a mesma vontade de largar tudo pra ficar dormindo um pouco mais. A gente tinha as mesmas neuras, e quando não tinha, a gente se fortalecia.
 Quer coisa mais bonita que um casal que é um só?
 Mas nessas de se fortalecer a gente acaba, vez por outra, se estranhando.
 De tanto ser um só a gente acaba se enfraquecendo também. E ai a tentação e o descuido vem e PLOFT! Você tem que reunir suas coisas e tirar o time, na tentativa futil de não estragar aquela lembrança boa que um foi para o outro.
 Quer coisa mais triste que um casal-somos-um-só que tem que reaprender a ser dois de novo?
-Vem bartholomeu, não nos querem mais aqui.
 



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