Mesmo se fazendo de desentendido pelas minhas brigas, encenavas surpresa enquanto eu reclamava mais do que suportavas, e mesmo assim continuavas sendo mais do que o Amor previa pra mim.
E continuastes sendo, nesses últimos meses em que meu pé tinha descoberto que em cima dos teus era um bom lugar para descansar, um homem capaz de encostar a testa na minha e, entre dois sorrisos frouxos, mesmo com as minhas espinhas, cabelo ruim, e mau humor, ficar feliz só de se encontrar.
A gente tinha o mesmo gosto, tanto pras piadas ruins quanto no céu da boca.
Quando eu me cheirava sentia o teu cheiro e meus dedinhos afobados sabiam digitar teu numero mais rápido do que o papa léguas corria do coyote, só pra sanar aquela vontade incessante de ouvir tua voz serena e acalmar minhas agonias.
Mesmo sozinha eu já ouvia - e ainda ouço - tua risada junto com a minha todas as vezes que me deparo com essas coisas sem-graça-e-que-só-eu-rio. A gente tinha o mesmo toque. Vibrava na mesma frequência e nossas rádios sempre estavam na mesma estação. A gente era sincronizado na mesma playlist.
Nosso dia-a-dia tinha tanto um do outro que já era impossível saber o que era de quem, seja no nome do esmalte ou dos futuros filhos. A gente tinha os mesmos gestos. A mesma mania estranha de falar com voz de criança e a mesma vontade de largar tudo pra ficar dormindo um pouco mais. A gente tinha as mesmas neuras, e quando não tinha, a gente se fortalecia.
Quer coisa mais bonita que um casal que é um só?
Mas nessas de se fortalecer a gente acaba, vez por outra, se estranhando.
De tanto ser um só a gente acaba se enfraquecendo também. E ai a tentação e o descuido vem e PLOFT! Você tem que reunir suas coisas e tirar o time, na tentativa futil de não estragar aquela lembrança boa que um foi para o outro.
Quer coisa mais triste que um casal-somos-um-só que tem que reaprender a ser dois de novo?
-Vem bartholomeu, não nos querem mais aqui.
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