sexta-feira, julho 9

morena.

Guri, não sabes do arrepio que me da quando me chamas de morena com esse ar delinquente ou quando te vejo andando pela minha casa como se ela fosse tua também, como se toda tua vida estivesse branca e limpida.
POrque, como outrora eu prometi, eu limpei teus lençóis púidos das paixoes canalhas que você teve, limpei mancha por mancha de amargura que sobrou em ti. E agora me proponho a pintar tuas paredes já desgastadas pelo tempo. A limpar toda sujeira que ficou debaixo do tapete da sala das noites de poker, a lavar todos os copos impregnados de aguardente guardados no armário da cozinha.
Me deixa ser a mulher capaz de por um ponto de interrogação em todos os teus medos escondidos embaixo da cama. Me deixa lavar o teu banheiro de todas as ressacas passadas, passar tuas roupas tantas vezes já amarrotadas, verificar, colarinho por colarinho se estão todos monocromáticos.
Me permite jogar fora as caixas de McDonald esquecidos no banco do teu carro, me permite encher a tua geladeira de comida de verdade, regar o jardim que herdastes da tua mãe que tá quase morrendo. Se quiseres podes até me pedir para por em ordem teus cds a muito bagunçados, para achar aquela calça jeans escuro a muito esquecida, para costurar o pijama preferido furado por um salto alheio , a meia furada, o botão da camisa de gola verde água que eu não gosto.
Deixa eu por em ordem a tua casa, te fazer esquecer de todo o sofrimento que manchou tuas vidraças. Me deixa te deixar limpo da maneira mal e torta que eu sei.
Me deixa ficar aqui, com a tua camisa me servindo de pijama tomando café preto enquanto cantas pra mim colocando coisa por coisa no seu lugar na tua casa -e na tua vida - que estão uma bagunça. Me chama de morena com aquele ar de dengoso. Me deixa por em ordem na tua vida, e depois te oferece a fazer o mesmo por mim.



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