domingo, setembro 19

sobre sábados a noite.

Ela desceu do carro prata, ajeitou a blusa e foi em direção a porta de uma casa alternativa que a muito tempo ela não entrava.
Onze e vinte gritando no relógio no pulso esquerdo, no direito uma pulseirinha de ouro.
Quatro argolas douradas nas orelhas que o cabelo moreno escondia. Um copo plástico de cerveja de 500 ml numa mão e halls vermelhos na outra. A carteira de identidade anunciando 19 anos no mesmo bolso do celular e do dinheiro. O cheiro de cigarro irritava a alergia sensível dela, a musica não era das suas preferidas. Ela não ligava.
Entrou na casa com seus amigos. Sentados em uma mesinha de madeira, acharam graça dos nomes sugestivos dos drinks. Viraram uma tequila com batatinha frita. Uma, duas... subiram para ver a banda tocar. Tentaram cantar musicas que não sabiam a letra. Inventaram refroes e se balançavam de olhos fechados nas baladinhas- melancólicas. Riram do vocalista de moletom naquele calor. Ganharam um cd promocional no sorteio e o amigo realizou o sonho de subir no palco.
Meia noite e cinquenta. O celular não tocou. Ela se olhou no espelho do banheiro e fez um coque. Os anéis de cabelo caindo sobre os olhos. Típico.
Se sentou no bar. Alguns caras se aproximaram enquanto o amigo não voltava. Ela quase rosnava para qualquer um que chegasse, incluindo o cara de blusa rosa que lhe ofereceu uma bebida.
O chão começou a parecer mais consistente, o salto começou a incomodar e as paredes pararam de rodar. As idéias, assim como os cabelos, começaram a aparecer enrolados.
Aquelas caraminholas começaram a surgir em feixes inconstantes de pensamento, igual a essas tirinhas do jornal: curtas e diretas.
Não era saudade, não era submissão nem vassalagem. Era uma solidão. Dessas meio tristes, que fez com que ela se sentasse numa cadeira avulsa qualquer e pensasse. No rumo que a vida dela tem levado. Nos amigos cada vez mais distantes. Em como os olhos sempre expressivos dela agora só expressavam o seu cansaço de descaso com tudo em volta. A verdade é que ela perdeu aquele brilho, e isso nao tinha nada a ver com o fato de estar só.
Tá , na verdade até que tinha a ver com perder a capacidade de achar algo que a alegrasse nesses ultimos tempos, mas não tinha a ver, necessariamente com o fato de estar só. Tinha a ver com a cobrança que ela sofria violentamente nesses últimos tempos. Tinha a ver com o medo do que esperava por ela daqui a 4 meses. E tinha a ver com os caras que davam em cima dela também, talvez.
Tinha uma possibilidade de ser a saudade de alguma coisa que nunca existiu, mas ela sempre achou essa historia de sentir saudades do que nunca existiu vaga demais , então preferia descartar essa possibilidade.
Talvez fosse tudo isso junto, ou não fosse nada.
Quem sabe eram só os hormonios a flor da pele, nessa montanha-russa transcedental que era a adolescencia- e que ela rezava para não acabar nunca.



Um comentário:

  1. só pra constar: não, ela não perdeu aquele brilho. ela ainda tem brilho, e muito. ;)

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